21/08/2026│O Cone Sul se reconfigura como um espaço de extração de recursos, onde a Argentina perde seu papel de sócio estratégico, fruto de políticas de desindustrialização e alinhamento com os EUA, enquanto o Brasil se integra a blocos tecnológicos e comerciais com a China. Esta ruptura, alinhada com a lógica de Thatcher, não será reversível, e o próximo governo argentino apenas administrará a ausência de indústria e integração regional.
Por: Lic. Alejandro Marcó del Pont
Segundo Margaret Thatcher, seu maior feito foi Tony Blair e o Novo Trabalhismo. Recado para a Argentina (El Tábano Economista)

Margaret Thatcher, em uma de suas confissões mais cínicas e reveladoras, declarou que seu maior triunfo político não havia sido derrotar os sindicatos nem privatizar a indústria britânica. Seu maior feito, disse, foi Tony Blair e o Novo Trabalhismo. A Dama de Ferro entendia algo que as elites sul-americanas ainda não compreendem: a destruição mais perfeita não é aquela que elimina o adversário, mas sim aquela que obriga o sucessor a governar sobre as ruínas com as regras que o destruidor impôs. Essa é a mensagem que a história envia hoje à Argentina.
A tensão entre Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva levou a relação bilateral ao ponto mais delicado em quatro décadas. Mas o verdadeiro terremoto não está nos insultos diplomáticos nem nas cúpulas do Mercosul onde um omite o outro. O terremoto está no que está se rompendo por baixo: as cadeias produtivas, a arquitetura tecnológica, a confiança institucional e, acima de tudo, a própria possibilidade de um projeto de desenvolvimento compartilhado.
E isso, ao contrário dos governos, não se muda por decreto. O Brasil continua sendo o principal parceiro comercial da Argentina, com um intercâmbio que superou US$ 31 bilhões em 2025. Mas esse número, que parece sólido, esconde uma hemorragia estrutural: Buenos Aires arrasta um déficit crônico, exporta matérias-primas e importa manufaturados, e a brecha se alarga a cada trimestre. A pergunta que ninguém na Casa Rosada quer fazer não é quanto comércio resta, mas quanto restará quando o cristal estiver completamente quebrado.
Comecemos pelo final. Se em 2027 assumir na Argentina um governo pragmático — de direita, de centro, ou aquele híbrido camuflado que os argentinos conhecem tão bem, o “blairismo” que promete reconstruir sobre a poeira sem admitir o que e quem a provocou —, descobrirá que a integração com o Brasil nunca mais será a mesma. O dano estrutural é, em grande medida, irreversível. As cadeias de valor são como cristais: uma vez quebradas, não se colam. Se uma terminal automotiva fecha sua planta em Córdoba e se realoca no Brasil, México ou Índia, não voltará quando o ciclo político mudar.
A dependência de trajetória — esse conceito que os economistas chamam de path dependence — terá ditado que o Brasil absorveu essa capacidade instalada para sempre. Não há decreto, não há subsídio, não há discurso de posse que reverta uma decisão corporativa dessa magnitude. E aqui aparece o paradoxo thatcheriano: o maior “feito” do mileísmo não será ter derrotado o kirchnerismo. Será ter convertido o próximo governo, seja de que signo for, em um administrador da desindustrialização. Um Blair sobre ruínas alheias.
A tragédia da política externa argentina atual é a de trocar ativos estratégicos — soberania tecnológica, integração industrial, liderança regional — por promessas ideológicas de Washington que não se traduzem em investimento estrangeiro direto real. Mas seria um equívoco chamar isso de “erro”. É uma decisão. A elite econômica argentina não é industrial como a burguesia paulista. É financeira, agroexportadora e, mais recentemente, energética e mineira. Para o capital rentista argentino, a manufatura é um problema: demanda dólares para importar insumos, exige proteção tarifária, gera pressões sindicais e — pior ainda — obriga a competir.
O núcleo de acumulação já não passa pelas fábricas de Rosário ou Córdoba, mas pela extração de recursos naturais e pela valorização de ativos financeiros offshore. A desindustrialização não é um dano colateral para essa elite. É a condição necessária para disciplinar o mercado interno e sustentar a rentabilidade das commodities. Não lhes dói que a indústria exporte trabalho para o Brasil porque, em sua contabilidade, esse trabalho nunca foi rentável.
Os números confirmam com uma crueldade quase obscena: no primeiro semestre de 2026, o Brasil foi o principal destino das manufaturas de origem industrial argentinas, com US$ 4,004 bilhões, 30% de todas as exportações industriais do país. O setor automotivo é o mais sensível: 53% do que a Argentina exporta para o Brasil são automóveis e autopeças, enquanto as importações automotivas do Brasil representam 26% do total comprado, cerca de US$ 1,94 bilhão. Ou seja, a Argentina ainda exporta trabalho industrial para o Brasil. Mas cada planta que fecha, cada autopeça que baixa as portas, torna esse número mais fictício, mais emprestado, mais próximo do zero.
Aqui reside um dos maiores silêncios analíticos do continente. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) não perde apenas o mercado cativo argentino por causa das políticas de corte de Milei. Está sendo arrasada pela China. O Brasil vende a Pequim commodities — soja, minério de ferro, petróleo bruto — e compra manufaturados de alta tecnologia: veículos elétricos da BYD, painéis solares, maquinário pesado, infraestrutura 5G. O resultado é um superávit comercial macroeconômico que o agronegócio celebra, mas uma destruição silenciosa do tecido industrial paulista que a FIESP denuncia sem que ninguém a escute.
A Associação Brasileira do Agronegócio, a ABAG, comemora vendas recordes a Pequim. A FIESP vê como suas indústrias — têxtil, autopeças, eletrodomésticos — são varridas pela competitividade asiática. E no meio, a Argentina, que historicamente foi a tábua de salvação da indústria brasileira, afunda em uma recessão que destrói a demanda. A integração com a Argentina se torna irrelevante quando a China oferece um mercado de 1,4 bilhão de consumidores. E esse é o cálculo que, em voz baixa, a elite industrial brasileira já fez.
Há um ator que não aparece nos discursos de Milei nem nos de Lula, mas que controla o verdadeiro fluxo de riqueza do Cone Sul: o oligopólio agroindustrial. Os terminais portuários de Porto General San Martín e Timbúes, na Grande Rosário, são controlados por Cargill, COFCO e Bunge. No Brasil, essas mesmas empresas — junto com a suíça Glencore — administram os terminais do Arco Norte, em Barcarena e Santarém, e o porto de Santos.
São as famosas ABCD — ADM, Bunge, Cargill, Dreyfus — mais a chinesa COFCO: cinco ou seis escritórios comerciais em Chicago, Genebra e Pequim que fixam preços, logística e destinos para 80% dos grãos que saem da América do Sul. Para essas corporações, a fronteira entre Argentina e Brasil é uma ficção legal. Se a Argentina exporta menos, Bunge ou COFCO simplesmente movem o trading da soja brasileira através de Santos ou Itacoatiara. A crise de um país é irrelevante; o fluxo de capital não para. A ABAG brasileira e a Sociedade Rural Argentina competem pela terra, sim. Mas o poder real — o de fixar preços, decidir rotas logísticas e capturar margens — está nas mesmas cinco mesas de sempre. A Hidrovia Paraná-Paraguai, por onde sai 80% das exportações argentinas, não é um projeto binacional. É uma rodovia corporativa que atravessa dois países sem pedir permissão.
A Guerra Fria tecnológica já chegou ao Cone Sul, e chegou com siglas. Em dezembro de 2025, o Departamento de Estado dos EUA lançou a Pax Silica, uma rede de “parceiros confiáveis” para garantir o abastecimento de minerais críticos, terras raras, lítio, cobre, semicondutores e centros de dados. Argentina e Chile se incorporaram em 2026 como os primeiros países sul-americanos, ingressando como fornecedores de recursos e território, sem acesso às camadas de design de modelos, fabricação de chips ou soberania de dados.
Seis meses depois, em julho de 2026, a China apresentou em Xangai a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, WAICO, assinada por 29 países, incluindo o Brasil. A WAICO se propõe como uma organização intergovernamental aberta, com eixos em governança compartilhada, padrões técnicos, redução da lacuna com o Sul Global e sustentabilidade energética. A diferença não é retórica. É estrutural. A Pax Silica insere a Argentina como pedreira do complexo militar-tecnológico americano: exporta átomos, importa regras. A WAICO insere o Brasil como arquiteto de uma governança digital alternativa: exporta padrões, importa soberania.
A disputa se sobrepõe à competição por minerais críticos — Argentina oferece lítio e cobre; Brasil, ferro, cobre e capacidade industrial — e define quem escreverá as regras do século XXI na América do Sul. Se a Argentina mantiver a arquitetura tecnológica exigida por Washington, ficará tecnicamente isolada do Brasil e do continente. O Brasil, como membro fundador da WAICO e parceiro da Huawei, desenvolverá redes 6G, inteligência artificial de código aberto e sistemas de pagamentos digitais sob padrões chineses. Não haverá roaming tecnológico. As redes elétricas inteligentes, os sistemas logísticos da Hidrovia e as redes financeiras deixarão de ser interoperáveis. A Argentina será uma ilha digital ocidental em um oceano tecnológico de matriz asiática.
A Nova Rota da Seda: a China já não precisa da Argentina industrial. Sua estratégia é consolidar o Corredor Bioceânico Central, conectando o porto de Santos (Brasil) ao Oceano Pacífico através do Paraguai, do norte argentino e do norte do Chile. O objetivo? Extrair o lítio do salar, o cobre andino e a soja do Mato Grosso/Paraguai diretamente para Xangai, contornando os gargalos políticos de Buenos Aires. Nesse cenário, e com o projeto do Corredor Ferroviário Bioceânico que busca unir a costa atlântica do Brasil ao Megaporto de Chancay, na costa do Pacífico do Peru, o Brasil é o centro logístico chinês no Atlântico Sul, e a indústria argentina fica como um vazio geográfico que a China simplesmente “contorna” pelo norte.
Nesse mapa, e se Lula consolidar seu projeto em 2026, o Brasil tratará a Argentina não como um parceiro paritário, mas como um fornecedor de gás barato sazonal para o sul de seu território. A integração energética, que no passado foi o motor da aliança bilateral, se converterá em uma transação assimétrica e fria, onde o Brasil ditará os preços aproveitando o rentismo das elites que administram Vaca Muerta e a necessidade angustiante do governo argentino de obter divisas para pagar dívidas.
O cenário pós-Milei não será a refundação do Mercosul. Será sua mutação para uma simples zona de livre comércio onde cada país negocia separadamente com terceiros. A política tarifária comum terá morrido. A relação bilateral passará de aliança estratégica a transação comercial. O Brasil comprará da Argentina gás de Vaca Muerta e lítio bruto para suas próprias fábricas de baterias, mas não haverá transferência de tecnologia nem desenvolvimento conjunto.
A estratégia de Lula para um eventual segundo mandato é clara: liderança multipolar, fortalecimento do Mercosul como plataforma de negociação coletiva, aprofundamento de alianças com o Sul Global — BRICS, CELAC —, aceleração de um acordo comercial Mercosul-China e reforma das instituições multilaterais. Sem um Mercosul forte, o Brasil perde capacidade de negociação coletiva. E sem o Brasil liderando, a região fica à mercê das potências externas. Enquanto isso, a Argentina negocia bilateralmente com Washington, furando a tarifa externa comum e enfraquecendo a união aduaneira. É o equivalente geopolítico de queimar a ponte enquanto se está em cima dela.
Se Donald Trump perder pelo menos uma câmara do Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026 — o cenário mais provável, segundo todas as pesquisas —, sua capacidade de sustentar a arquitetura hemisférica que Milei necessita se evaporará. Sem Fast-Track para acordos comerciais, mas com margem política para a Pax Silica, e talvez sem margem política para forçar o FMI, Washington olhará para dentro. A combinação de um Trump convertido em pato manco, um Brasil consolidado no multipolarismo dos BRICS e da WAICO, e uma Argentina recessiva e desindustrializada configura o mapa final: os Estados Unidos podem perder a capacidade de ditar a política externa sul-americana.
O continente deixa de ser o quintal e se torna um tabuleiro multipolar onde cada país negocia transacionalmente. E a Argentina, por carecer de indústria, de mercado regional e de um padrinho com poder real no Congresso, ficará reduzida à irrelevância diplomática. Sua única carta de negociação será vender seus recursos naturais à vista, ao melhor comprador, sem capacidade de exigir transferência tecnológica. Para beneplácito das elites locais, que ficarão com os dólares.
Margaret Thatcher entendeu que a vitória definitiva não é destruir o adversário. É fazer com que aquele que vier depois governe com suas regras. Tony Blair não reverteu as privatizações; administrou-as. Não reconstruiu a indústria britânica; gerenciou sua ausência com um sorriso e um discurso moderno. Esse é o futuro que está sendo escrito para a Argentina.
O próximo governo — pragmático, moderado, blairiano — não reconstruirá a integração com o Brasil. Administrará sua ausência. Não recuperará a indústria. Gerenciará a exportação de matérias-primas com linguagem progressista. Não desafiará o oligopólio ABCD+C. Negociará melhores margens para as mesmas cinco mesas de sempre. A fratura do Cone Sul não é uma fenda que se fecha. É uma nova geografia. E nessa nova geografia, a Argentina já não é um parceiro. É um território de extração com bandeira própria.
Thatcher estaria orgulhosa.
