García Linera: “O neoconservadorismo se apoia na identidade nacional para criar o migrante como o novo adversário”


13/08/2026 – Álvaro García Linera, ex-vice-presidente da Bolívia e um dos principais intelectuais e dirigentes políticos da América Latina, visitou a Universidade Nacional General Sarmiento (UNGS) e participou de uma conversa sobre a relação entre marxismo e nação, e a conjuntura atual.

FONTE: En Orsai

No âmbito da apresentação da última edição da revista Wirapuru, García Linera falou sobre a habilidade das forças conservadoras em ressignificar as identidades nacionais para encontrar no migrante o culpado pelo mal-estar e alertou sobre o “mundo cruel” e de “Estados chantagistas” que se desdobrará nos próximos 20 anos. Sobre os avanços tecnológicos, disse não acreditar que a tecnologia possa dominar completamente as pessoas e que a influência ou não das mensagens depende de certa disponibilidade e predisposição coletiva.

O intelectual afirmou que hoje “as forças conservadoras, muito mais astutas que a esquerda cosmopolita, entenderam que as nações não tinham se diluído pelos mercados, que ali havia uma força política utilizável, um suporte enraizado no corpo, na história, no imaginário das pessoas, que poderia ser acionado de uma maneira ou de outra”.

A respeito, continuou: “Elas estão fazendo isso de maneira conservadora, autoritária, repressiva, criando falsos inimigos: o adversário não é o ricaço que concentrou a riqueza, mas o migrante que vem roubar nosso trabalho ou abusar de nossas mulheres para contaminar nosso sangue”.

García Linera destacou ainda a habilidade do neoconservadorismo em reutilizar, não apenas a identidade nacional, mas também a força estatal para consolidar blocos empresariais e desencadear guerras tarifárias.

Em diálogo com María Pia López e Martín Cortés, ele também se referiu a um “desencontro catastrófico”: “enquanto Estados Unidos, Europa e Ásia estão indo pelo caminho do reforço dos Estados para potencializar estruturas econômicas, na América Latina as forças conservadoras estão correndo atrás de um livre mercado”. Para García Linera, em “tempos de Estados guerreiros, que fazem guerras comerciais, se um Estado menor não tem firmeza suficiente, ele se torna um território de livre disponibilidade para o protetorado e a vassalagem”.

E sentenciou: “É um mundo muito cruel que está por vir e o paradigma é (Donald) Trump, o monstro clássico do interregno gramsciano. O monstro anuncia o porvir, está nos ensinando, aos progressistas, como usar o Estado. Ele usa a força do Estado para alcançar interesses próprios”.

Para o dirigente, diante desse panorama, “abre-se uma nova frente para propostas progressistas e de esquerda” e a luta por “um novo universal nacional” que não seja o autoritarismo, o racismo, que seja baseado na solidariedade, na cultura popular plebeia e diversa. Falou em “voltar a cavalgar a nação”. Considerou que a história dos países é marcada por aqueles que conseguem entender a nação e ressignificá-la à sua maneira e destacou o conceito de plurinacionalidade como uma contribuição latino-americana à temática da formação das nações na contemporaneidade.

Em relação à tecnologia, refletiu: “As tecnologias potencializam certas coisas, mas não inventam coisas em nós. Conforme minha disponibilidade social e estado de ânimo coletivo, vou me agarrar ou não a algo que a tecnologia me oferece. O celular e as redes potencializam coisas que já estão em mim”.

Desse modo, para García Linera “as tecnologias vão se tornando mais complexas, mas nunca podem ocupar toda a margem de possibilidades que nos dá a gramática da linguagem cerebral verbalizada (combinações infinitas de elementos finitos)”. E exemplificou: “Algo aconteceu que criou uma disponibilidade social para pensar que o Estado não serve, algo fizemos de errado. Depois, a tecnologia vem nos bombardear, reforçando uma predisposição nossa”.

O evento foi organizado pela revista Wirapuru, pela Diplomatura em Pensamento Latino-Americano, pelo Instituto do Desenvolvimento Humano (IDH) e pela Direção Geral de Relações Internacionais da UNGS. Na apresentação, participaram a decana do IDH, Julia Smola, e o diretor da revista, Andrés Tzeiman.

No link a seguir, é possível acessar o encontro completo, registrado e editado pela UNITV: Álvaro García Linera na UNGS.

Por Assessoria de Imprensa e Comunicação da UNGS