O neoliberalismo (e Milei) te endivida até a morte

14/08/2026│As reformas econômicas do governo de Javier Milei produziram um fenômeno que não é novo na história do neoliberalismo: a transferência de riqueza dos setores populares para os mais ricos por meio do endividamento forçado, dinâmica que chega ao extremo do suicídio. Esse processo responde ao chamado “efeito Hood Robin” — ao contrário de Robin Hood —, uma categoria econômica que descreve como as políticas neoliberais tiram dos pobres para dar aos ricos.

Por Ramiro Carlos H. Caggiano Blanco

A crise silenciosa que transformou a dívida em sentença.

“Ninguém colocou uma arma na cabeça de ninguém para se endividar”, declarou o presidente Javier Milei em agosto de 2026, ao ser consultado sobre o recorde de inadimplência que já afeta 17,4% das famílias argentinas. Horas antes, uma mulher de 63 anos se jogou sob as rodas do Trem Roca. Não conseguiu pagar um empréstimo bancário de menos de 700 dólares. No mesmo dia, um aposentado também tirou a própria vida. O presidente libertário, no entanto, insiste: as dívidas são “um problema entre privados” que os devedores “têm que resolver”.

1. As reformas que enriqueceram os ricos

O governo Milei implementou um pacote de medidas que configura a maior transferência de renda dos setores populares para as elites financeiras da história recente do país.

Eliminação de impostos sobre bens de luxo: A administração Milei eliminou os impostos internos sobre veículos de até 75 milhões de pesos e reduziu a alíquota para os que superam esse valor, com um custo fiscal estimado em 350 milhões de dólares anuais, valor que excede o orçamento operacional anual do CONICET (equivalente ao CNPq brasileiro).

Redução do imposto sobre grandes patrimônios: O governo elevou o mínimo não tributável, reduziu a alíquota e concedeu descontos por pagamento antecipado, com estabilidade tributária por 15 anos. Apenas 2% ou 3% da população, a de maior capacidade contributiva, paga esse imposto.

Dólar barato para fuga de capitais: A política de câmbio artificialmente baixo permite que quem tem renda em dólares ou acesso ao mercado cambial envie seus ganhos ao exterior a custo reduzido, facilitando a fuga de capitais.

RIGI e benefícios a grandes corporações: O regime de incentivo a grandes investimentos (RIGI) oferece estabilidade fiscal por 30 anos, redução de alíquotas e acesso livre a divisas para projetos acima de 200 milhões de dólares. Dos 16 projetos aprovados, 9 são de mineradoras multinacionais e 4 de petroleiras.

O resultado: enquanto os setores de alta renda e as grandes empresas se beneficiam, a população enfrenta o empobrecimento mais acelerado das últimas duas décadas.

2. A depreciação salarial que obrigou ao endividamento

O discurso oficial comemora a “desaceleração inflacionária” e a “recuperação econômica”. Os números, no entanto, contam uma história diferente.

Queda do salário mínimo: Segundo relatório da UBA e do Conicet, entre novembro de 2023 e abril de 2026, o salário mínimo real acumulou queda de 39,3%. Seu poder aquisitivo atual é inferior ao que tinha no ano 2001. Para recuperar seu valor histórico, deveria estar entre 1.509.000 e 1.838.000 pesos mensais, quando em abril de 2026 era de apenas 357.800 pesos.

O peso dos serviços: Embora alguns salários nominais tenham acompanhado a inflação no acumulado, o poder de compra despencou frente a serviços básicos. O percentual da renda destinado a cobrir a cesta de serviços passou de 56,4% em março de 2025 para 87,3% projetado para março de 2026.

O desfinanciamento dos serviços públicos: A queda do salário real se aprofunda com o desmonte dos serviços públicos essenciais. O orçamento da saúde caiu 32% real em 2024, o da educação 28% e as verbas para medicamentos do PAMI (sistema de saúde para aposentados) foram reduzidas em 41%. Cada aposentado que não consegue comprar seus remédios, cada família que precisa pagar uma escola privada porque a pública não tem recursos, cada doente que espera meses por uma cirurgia: todos estão pagando, com seu bolso e sua saúde, o custo do ajuste.

O pluriemprego como estratégia de sobrevivência: Diante da queda do poder aquisitivo, o pluriemprego tornou-se uma resposta generalizada. Relatório da Fundación Encuentro revelou que 1,6 milhão de argentinos trabalham em mais de um emprego, o que representa 12,2% da população ocupada, com aceleração desde 2022 e máximo histórico em 2024.

O boom dos aplicativos e seu paradoxo: O trabalho em plataformas digitais cresce enquanto, paradoxalmente, diminuem os pedidos, já que não há quem possa pagar pelos serviços. Estudo do Conicet (equivalente argentino ao Cnpq) e de oito universidades nacionais revela que 75% dos trabalhadores de aplicativos precisam de pluriemprego para sobreviver, e que a maioria entra nesse sistema “por necessidade”, não pela suposta satisfação de “ser seu próprio chefe”. Apenas 3 em cada 10 conseguem superar a metade da cesta básica total com sua renda nas plataformas.

Estratégias desesperadas: 47,4% dos lares argentinos tiveram que desenvolver alguma estratégia complementar de renda para chegar ao fim do mês durante o fechamento de 2025. 26,2% recorreram ao endividamento por meio de instituições financeiras, empréstimos de pessoas conhecidas, ou ambas.

3. O elo perdido: da dívida ao suicídio

Não existem estatísticas oficiais sobre suicídios por dívidas. O jornalismo, seguindo a regra de não divulgar esses casos para evitar o “efeito Werther” de contágio, tem invisibilizado sistematicamente o fenômeno. No entanto, os casos documentados são eloqüentes.

O caso do soldado Gómez (dezembro de 2025): O soldado Rodrigo Gómez, de 21 anos, membro do Regimento de Granadeiros a Cavalo, foi encontrado sem vida em um posto de guarda da Quinta de Olivos, residência presidencial. Ao lado de seu corpo, uma carta de despedida onde fazia referência explícita a dívidas econômicas. Seu perfil de crédito mostrava dívidas de quase 2 milhões de pesos com diferentes instituições.

A mulher do Trem Roca (12 de agosto de 2026): Uma mulher de 63 anos se jogou sob o trem na linha Roca. Segundo testemunhas, não conseguia pagar um empréstimo bancário de menos de 700 dólares. No mesmo dia, um aposentado também tirou a própria vida.

Casos nas forças de segurança: Diversos relatos jornalísticos apontam um preocupante aumento de suicídios na Gendarmaria e outras forças, associados ao estresse extremo, à impossibilidade de sustentar suas famílias e ao endividamento crônico.

O efeito Werther — o fenômeno de imitação de suicídios — explica a política de silêncio da mídia. Mas também oculta a dimensão real de uma tragédia que, como a pobreza ou a desnutrição, tornou-se estrutural.

4. Bancos e fintechs: cúmplices necessários do endividamento

O sistema financeiro formal não é mero espectador da crise. Tem sido um ator central na criação de um ciclo de endividamento do qual as famílias não conseguem escapar.

Recorde de inadimplência: A inadimplência das famílias atingiu 11,2% em fevereiro de 2026, quando em dezembro de 2024 era de 2,6%. Os empréstimos pessoais superaram 13,8% de irregularidade e os cartões de crédito 11,6%. No sistema não bancário, a inadimplência escalou para 23,9% em janeiro de 2026.

Argentina, líder regional: O país lidera a inadimplência bancária na região, muito acima do Brasil (3,9%), Colômbia (3%), Chile (2,4%) e México (2,2%).

Endividamento para sobreviver: 61% do uso dos cartões de crédito hoje se destina à compra de alimentos. O cartão deixou de ser um instrumento de financiamento para se tornar um mecanismo de sobrevivência.

Dívida equivalente a 2,5 salários: O endividamento médio das famílias passou de representar 1,5 salários no final de 2024 para equivaler a 2,5 salários no final de 2025. Os lares acumularam dívida equivalente a um salário inteiro em apenas doze meses.

O círculo vicioso: 34% da dívida bancária dos lares é refinanciamento de cartões de crédito, consolidando um “endividamento circular” onde se pede um crédito para quitar outro.

5. O caso exemplar do Mercado Livre: usura digital

O Mercado Livre, a maior empresa da América Latina por valor de mercado, transformou o endividamento das famílias argentinas em sua principal fonte de lucro. O caso é paradigmático de como as “reformas” desregulatórias permitem práticas que em qualquer país desenvolvido seriam consideradas crime.

Taxas usurárias: Em agosto de 2026, o ex-legislador Gabriel Solano denunciou criminalmente o Mercado Livre e seu CEO Marcos Galperín por cobrar taxas de juros que alcançam 1.375% ao ano. A denúncia se baseia no artigo 175 bis do Código Penal argentino, que pune quem se aproveita da “necessidade, leviandade ou inexperiência de uma pessoa” para cobrar juros “evidentemente desproporcionais” à prestação.

Comparação escandalosa com o Brasil: No Brasil, a mesma empresa cobra um Custo Financeiro Total Efetivo anual de 63,13%. Isso significa que um argentino paga 21 vezes mais que um brasileiro pelo mesmo produto financeiro. Enquanto no Brasil a taxa é de 63,13%, na Argentina chega a 1.375% — uma diferença que expõe a voracidade do mercado argentino desregulado.

O negócio principal: O negócio financeiro já representa 64,3% do faturamento do Mercado Livre na Argentina, quase o dobro de seu negócio original de comércio eletrônico. A empresa transformou a desesperação das famílias em sua principal fonte de renda.

Subsídios estatais: Enquanto cobra taxas de 1.375%, a empresa recebeu 68 bilhões de pesos em subsídios estatais nos primeiros seis meses de 2026. O Estado que Milei diz não dever intervir em “problemas entre privados” financia o principal usurário do país.

Pressão sobre os devedores: Embora não haja confirmação específica, são públicas as denúncias sobre práticas de cobrança agressivas das fintechs, incluindo o assédio aos contatos no celular dos devedores para humilhá-los e pressioná-los.

6. O outro circuito: agiotas e narcotráfico nos bairros

Quando o sistema formal expulsa os devedores, o único recurso é o mercado informal de crédito, onde a usura se mistura ao crime organizado.

A porta de saída do sistema formal: Quem não consegue pagar suas dívidas bancárias ou com fintechs, e não tem acesso a linhas de crédito mais baratas, recorre aos agiotas. O governo da província de Buenos Aires advertiu que a deterioração econômica empurrou milhares de famílias para o circuito financeiro informal, e que por trás desses empréstimos aparecem setores vinculados a atividades criminosas.

Os narcotraficantes como banqueiros: Nos bairros populares da Grande Buenos Aires e de outras regiões do país, os narcotraficantes diversificaram seus negócios para incluir a usura. Emprestam dinheiro a taxas exorbitantes — 50% semanal ou 100% mensal — e cobram com métodos violentos.

Sequestros extorsivos: Foram documentados casos de sequestros extorsivos vinculados a dívidas usurárias, onde as vítimas são privadas de sua liberdade para exigir resgates de seus familiares. Outras famílias precisam abandonar suas casas ou se mudar de província para escapar dos agiotas.

7. Conclusão: o neoliberalismo como máquina de endividamento e morte

O caso argentino não é exceção. Onde as receitas econômicas do neoliberalismo foram aplicadas em sua versão mais pura — desregulamentação financeira, ajuste fiscal, depreciação salarial, transferência de renda para os setores mais ricos — os resultados foram semelhantes.

México (1994-1995): A crise do “Efeito Tequila” deixou um saldo de famílias endividadas em dólares que não puderam pagar suas hipotecas, execuções em massa e um aumento da violência ligada à cobrança de dívidas.

Grécia (2010-2018): Os ajustes impostos pela “troika” levaram a uma queda do PIB de 25%, o desemprego juvenil superou 50% e os suicídios relacionados à crise econômica se multiplicaram. Estudo da Universidade da Pensilvânia documentou aumento de 35% nos suicídios durante os anos mais duros do ajuste.

Espanha (2008-2014): A bolha imobiliária e a crise financeira deixaram centenas de milhares de famílias despejadas. O movimento das plataformas de afetados pela hipoteca documentou casos de suicídio de pessoas que não conseguiam pagar suas dívidas.

O padrão se repete: Em todos esses casos, a sequência é a mesma:

  • Ajuste fiscal e desregulamentação financeira que favorece os setores mais concentrados.
  • Depreciação salarial que obriga as famílias a se endividarem para sobreviver.
  • Taxas usurárias no sistema formal e informal que tornam a dívida impagável.
  • Cobranças violentas que levam ao desespero.
  • Suicídios como expressão extrema de uma violência estrutural que o sistema econômico produz e o Estado ignora.

A fotografia da desigualdade em 2026

Os números oficiais confirmam que o “efeito Hood Robin” não é uma metáfora: é uma realidade estatística.

O fosso entre ricos e pobres se aprofunda: O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição de renda, atingiu 0,442 no primeiro trimestre de 2026, o valor mais alto dos últimos dois anos. Os 10% mais ricos da população têm uma renda per capita familiar 15 vezes maior que os 10% mais pobres.

Concentração de riqueza: Apenas 6% da população argentina concentra 34% do patrimônio do país. No topo, cerca de 350 famílias — 0,1% da classe alta — possuem um patrimônio de cerca de 30 milhões de dólares cada uma. Enquanto isso, os 50% mais pobres da sociedade destinam 36% de sua renda ao pagamento de impostos, contra 26% dos 10% mais ricos, uma estrutura tributária marcadamente regressiva.

A pobreza volta a crescer: Segundo a Pesquisa Permanente de Domicílios do INDEC, a pobreza atingiu 30,1% no primeiro trimestre de 2026, o que significa 1.477.000 pessoas a mais nessa condição do que apenas seis meses antes, totalizando mais de 14 milhões de argentinos em situação de pobreza. A indigência também subiu, para 6,5%.

O contraste com o Brasil: Desenrola vs. “problema entre privados”

Enquanto isso, no Brasil, o governo do presidente Lula implementou o Programa Desenrola Brasil, que já passou por duas edições e ajudou milhões de brasileiros a renegociar suas dívidas. O Desenrola 1.0, lançado em 2023, beneficiou cerca de 15 milhões de pessoas e renegociou mais de 53 bilhões de reais em dívidas. O Desenrola 2.0, lançado em maio de 2026, ampliou o alcance para pessoas com renda de até cinco salários mínimos (cerca de 8 mil reais), oferecendo descontos que podem chegar a 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e prazos de até 48 meses. O programa tem potencial para renegociar entre 62 bilhões e 77 bilhões de reais em dívidas e beneficiar até 20 milhões de pessoas.

O contraste não poderia ser mais claro: enquanto o governo argentino de Milei se recusa a intervir, dizendo que dívidas são “problemas entre privados” e que os devedores “têm que se virar”, o governo brasileiro lança programas massivos de renegociação, limpa o nome dos cidadãos e oferece condições para que as famílias possam respirar. Um país trata a dívida como caso de polícia (ou, pior, como caso de morte), o outro trata a dívida como caso de política pública.

O presidente diz que “ninguém colocou uma arma na cabeça de ninguém” para se endividar. Mas quando o salário não dá para comer, quando a única alternativa é se endividar a 1.375% ao ano, quando os agiotas ligados ao narcotráfico são a última opção, a violência já está presente. Não é uma arma, é uma estrutura econômica que transforma a necessidade em negócio e o desespero em morte.

A dívida, como a pobreza, não é um “problema entre privados“. É um problema político. E a política que a gera tem um nome: neoliberalismo.