EUA, tarifas e engenharia política no Brasil

20/07/2026 | A ideia é corroer a governabilidade atual para favorecer um retorno da direita nas próximas eleições brasileiras. (El Tábano Economista)

Fonte: El Tábano Economista

Por Alejandro Marcó del Pont

Há um paradoxo que atravessa completamente a nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil. Washington decidiu punir comercialmente um país com o qual não perde, mas ganha. A contradição desaparece quando se abandona a contabilidade comercial e se observa a geoeconomia. A tarifa adicional de 25%, que entrará em vigor em 22 de julho, não foi projetada principalmente para equilibrar importações e exportações.

Ela funciona como uma ferramenta de coerção, encarece a autonomia regulatória brasileira, altera os incentivos de suas elites econômicas e coloca um custo visível sobre as decisões de um governo que Washington considera independente demais. O comércio é o instrumento; a disciplina política, tecnológica e estratégica é o objetivo.

Isso não significa que Washington dite o resultado eleitoral, mas sim que tenta influenciar o clima da competição. A tarifa opera como um recado a empresários, exportadores e elites políticas: o custo de sustentar certas linhas de autonomia pode aumentar se o Brasil não se alinhar com a arquitetura preferida pelos EUA.

Críticos americanos e brasileiros concordam que o superávit comercial histórico dos EUA torna a punição ainda mais gritante. Por que punir um parceiro com o qual se ganha? A resposta está em camadas mais profundas: controle de cadeias de suprimento, acesso a recursos estratégicos e, acima de tudo, o medo de um Brasil que ousa construir infraestruturas de soberania sem pedir permissão. É aqui que entra a verdadeira dor de cabeça para as elites financeiras americanas: o PIX.

Segundo dados oficiais, os EUA acumularam um superávit comercial de bens com o Brasil de US14,4 bilhões, apenas no último ano (um aumento de 112,8% em relação com o ano anterior). Nos últimos 15 anos, o superávit acumulado dos EUA com Brasil alcança  424,5 bilhões.

A narrativa oficial fala em proteger o trabalhador americano, mas os corredores de Washington e os gabinetes do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) revelam uma verdade muito mais obscura: trata-se de punir a autonomia estratégica de um país que ousou construir infraestruturas de poder à margem do oligopólio financeiro de Wall Street e do Vale do Silício.

Para compreender a magnitude dessa agressão, é imperativo olhar além do aço e da soja, e direcionar o olhar para o campo de batalha mais sensível e sofisticado dessa disputa: o sistema PIX, que não é apenas um sistema de pagamentos instantâneos, mas uma peça mestra de engenharia financeira pública que, desde seu lançamento em 2020, transformou radicalmente o mercado interno brasileiro.

Desenvolvido pelo Banco Central do Brasil (BCB), permite transferências gratuitas ou de custo mínimo 24 horas por dia, sem intermediários custosos. Hoje, processa bilhões de transações mensais, abrangendo desde o pagamento do feirante até grandes operações empresariais. Sua adoção em massa — cerca de 200 milhões de usuários — democratizou as finanças, reduziu a exclusão bancária e, de quebra, deslocou os grandes vencedores do antigo regime: Visa, Mastercard, Google Pay e outros intermediários privados.

A disputa não se limita à Visa ou Mastercard. Os Estados Unidos reuniram em um mesmo dossiê os pagamentos eletrônicos e as medidas judiciais brasileiras contra X, Meta, Google e outras plataformas. São conflitos diferentes, mas têm um elemento comum: a resistência americana a que um Estado periférico determine as regras de infraestruturas digitais historicamente dominadas por corporações norte-americanas.

O PIX é uma dor de cabeça não só pelo mercado que já ocupa, mas pelo precedente que estabelece. Ele demonstra que um banco central pode construir uma rede pública eficiente, reduzir as rendas dos intermediários e organizar a economia digital sem entregar toda a sua arquitetura a empresas estrangeiras. Se o modelo for replicado em outras economias emergentes, a perda potencial para as redes privadas será muito maior do que a do mercado brasileiro.

Essa investida econômica contra o PIX e o sistema financeiro brasileiro não é um fim em si mesma, mas o combustível para uma maquinaria de intervenção eleitoral sem precedentes na história recente das relações hemisféricas. Ao estrangular setores-chave da economia brasileira a poucos meses das eleições de outubro de 2026, a administração Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, estão executando um plano de condicionamento político.

O objetivo é gerar sofrimento econômico suficiente para que o eleitorado o atribua à incapacidade diplomática do governo Lula, mas sem provocar um colapso sistêmico que desestabilize a região. É a criação de uma profecia autorrealizável. Os Estados Unidos impõem tarifas para prejudicar a economia e, em seguida, apontam o dano econômico como prova de que o governo atual é um desastre e deve ser substituído.

No entanto, a verdadeira genialidade cínica dessa medida reside em seu desenho seletivo. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) não aplicou um muro tarifário cego; deixou de fora atores de forma cirúrgica. A lista de tarifas de 25% não atinge indiscriminadamente. Produtos-chave — carne bovina, café, partes de aeronaves, metais raros, petróleo e certas commodities — ficam isentos. Essa seleção de quase 2.000 itens (segundo estimativas de impacto) revela cálculo político e econômico preciso. Setores com forte lobby em Washington ou alinhados com interesses estratégicos americanos são poupados. Enquanto isso, bens industrializados, maquinários e manufaturas mais expostas ao mercado interno brasileiro arcam com o peso da medida.

A elite agroexportadora e financeira (bolsonarista ou pragmática), a carne bovina (JBS, Marfrig, Minerva) e o café (grandes cooperativas de Minas Gerais e Espírito Santo, e exportadores como a Cecafé), são a base eleitoral e financeira do bolsonarismo (a bancada ruralista). Figuras como Wesley Batista (JBS) ou Marcos Molina (Minerva), e políticos como Tereza Cristina, operam com um pragmatismo feroz. Embora sejam o núcleo duro da direita, sua lealdade é aos negócios, não a uma ideologia rígida. Grande parte da elite agropecuária brasileira sente maior afinidade política, cultural e empresarial com os Estados Unidos, mas não pode aceitar um rompimento com a China.

Ao serem poupados, o governo dos EUA envia a eles uma mensagem clara: “Nós protegemos seus negócios se vocês mantiverem a estabilidade e não se radicalizarem contra Washington”. Isso neutraliza qualquer pressão que o agronegócio pudesse exercer sobre o governo Lula para romper relações com os EUA, e valida a narrativa de Flávio Bolsonaro em Washington de que “o verdadeiro Brasil produtivo” é aliado dos EUA. O petróleo (Petrobras, 3R Petroleum, Enauta) e a aviação civil (Embraer) são elites que transcendem a divisão Lula vs. Bolsonaro. São atores sistêmicos. A Embraer (com Francisco Gomes Neto como CEO e os Batista como acionistas) e o setor de petróleo dependem de tecnologia, financiamento e cadeias de suprimento americanas.

As tarifas não são aleatórias; são projetadas para atingir o coração do projeto de “reindustrialização” do atual governo e da classe trabalhadora organizada. O aço e a siderurgia (Gerdau, Usiminas, CSN), autopeças, maquinário, calçados, têxteis e certos produtos processados de madeira e móveis. Esta é a burguesia industrial tradicional (representada pela FIESP em São Paulo ou pela CNI) e o sindicalismo organizado (centrais sindicais historicamente alinhadas com o PT e o lulismo).

O golpe na reindustrialização, ao encarecer em 25% as exportações de valor agregado, torna inviável que a indústria brasileira concorra nos EUA, freando qualquer tentativa do Brasil de deixar de ser um mero exportador de matérias-primas. Essas indústrias empregam milhões de pessoas no ABC Paulista e no sul do país (bastiões eleitorais importantes). O fechamento de fábricas ou a redução de horas por conta da queda nas exportações gera desemprego e descontentamento social, que é atribuído diretamente à gestão econômica de Lula.

Nesse tabuleiro, joga-se a ambivalência estratégica brasileira, uma doutrina histórica de autonomia que agora enfrenta seus limites mais duros. Desde a era de Getúlio Vargas até o Itamaraty moderno, o Brasil cultivou o “não alinhamento ativo”: comerciar com todos, alinhar-se com nenhum, posicionar-se como líder do Sul Global. Lula o atualizou com os BRICS, o G20 e sua ênfase no multilateralismo. “Queremos comerciar com os EUA e com a China”, repete. O problema surge quando a neutralidade deixa de ser crível ou quando uma das potências interpreta essa ambiguidade como alinhamento encoberto com o adversário.

Se a Lei de Reciprocidade às tarifas for aplicada de forma simétrica e sem uma estratégia de desescalada, o Brasil pode acabar pagando mais do que ganha: os custos de importação subirão, as cadeias produtivas serão tensionadas e a incerteza empresarial crescerá. Além disso, a retaliação pode empurrar mais comércio para a China, reforçando o “efeito ricochete” que vários analistas já descrevem: Washington pune e o Brasil compensa, mas o grande beneficiado estrutural acaba sendo Pequim. Nesse sentido, a ambivalência deixa de ser uma ferramenta de autonomia e se torna um canal de subordinação indireta a uma nova dependência.

O Brasil mantém tamanho, capacidade diplomática e centralidade econômica, embora sua liderança regional se enfraqueça quando sua política externa é percebida como mais reativa do que estratégica, ou quando é visto como preso entre o conflito com os EUA e a dependência crescente da China. A hegemonia regional não se perde apenas por comerciar com a China; ela se corrói quando o vizinho conclui que o Brasil já não oferece bens públicos regionais claros, previsibilidade ou um projeto de integração crível.

Os casos da Venezuela e de Cuba, onde a influência brasileira se reduziu a uma mera gestão de danos humanitários e migratórios, são o testemunho dessa perda de soberania regional. O Brasil deixou de ser o arquiteto da integração sul-americana para se tornar um ator reativo, preso no fogo cruzado das grandes potências.

A ambivalência estratégica, que em sua origem foi um escudo para proteger a soberania nacional em um mundo hostil, transformou-se no calcanhar de Aquiles da potência regional. Ao tentar não escolher entre o império tecnológico americano e o império manufatureiro chinês, o Brasil acaba sendo punido pelo primeiro e subordinado pelo segundo. A lição que emerge deste julho de 2026 é amarga e reveladora: no século XXI, a soberania não pode ser negociada por meio da equidistância. Ou se constroem infraestruturas de poder próprias, inatacáveis e blindadas, como é o PIX, e se está disposto a defendê-las com todo o custo político e econômico que isso implique, ou se termina sendo um mero espectador no leilão dos próprios recursos nacionais.

O Brasil dispõe, desde 2025, da Lei de Reciprocidade Econômica, que permite suspender concessões comerciais, de investimento e de propriedade intelectual em resposta a medidas estrangeiras que prejudiquem o país. A aplicação não é automática: deve haver uma avaliação técnica, participação da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (Camex) e definição dos produtos ou concessões afetados.

Uma retaliação simétrica e indiscriminada de 25% sobre todas as importações americanas seria politicamente vistosa, mas economicamente pouco inteligente. O verdadeiro campo de batalha é o PIX porque converte a soberania em infraestrutura. Os Estados Unidos não veem apenas um sistema de pagamentos; veem um modelo replicável que enfraquece a renda de seus intermediários financeiros e reduz sua capacidade de disciplinar economias emergentes. Para o Brasil, defender esse sistema de pagamentos não é apenas defender uma ferramenta tecnológica, mas preservar a autonomia regulatória, a inclusão financeira e uma alavanca de poder na transição para uma arquitetura econômica mais multipolar.