A violência macartista de Marco Rubio

24/07/2026│A deriva macartista do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que utiliza uma cruzada contra um suposto “terrorismo de esquerda transnacional” como ferramenta de guerra cognitiva e proselitismo político interno. Nessa lógica, ele organizou uma cúpula global e apresentou um relatório que criminaliza Cuba sem provas, invertendo a história para apresentar a ilha como agressora e os EUA como vítima.

Por Carlos Fazo

Desde sua nomeação como secretário de Estado em 21 de janeiro de 2025, Marco Rubio tem tido duas obsessões: acabar com o comunismo em Cuba e suceder Donald Trump na cadeira da Sala Oval. Com tais objetivos, Rubio – que em maio seguinte também acumularia os cargos de conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca e administrador da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – delineou uma estratégia que vem cumprindo à risca. Assim, a partir de uma bem lubricada arquitetura comunicacional, conseguiu fabricar para si uma figura que opera como eixo simbólico para articular vários sentidos: o de autoridade e estrategista estadunidense, combinando pressão internacional com sanções, ajuda humanitária, intervenção, negociação e transição na ilha.

A Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, realizada na quinta-feira 16 em Washington, que apelou ao primitivo recurso fascista de atiçar o medo a uma suposta “ameaça vermelha”, fez parte dessa arquitetura de influência e guerra cognitiva fabricada por Rubio e seu círculo de falcões. Em termos de uma cruzada ideológica purificadora e como fiel intérprete da chamada doutrina Donroe, plasmada nas estratégias de “segurança nacional e contra o terrorismo” da administração Trump, Rubio convocou a “esmagar” para sempre um novo inimigo público número um inventado: a extrema esquerda transnacional. Um inimigo difuso e genérico, que definiu como essencialmente violento e alheio à civilização ocidental e cristã, e no qual, segundo seu relato, convergem comunistas, anarquistas, marxistas, antifascistas e até socialistas democráticos (como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani), categorias todas funcionais à extrema direita trumpista e seus satélites ao redor do mundo.

Representantes de 66 países participaram da “cúpula ministerial global”. Entre eles, esteve o embaixador uruguaio em Washington, Daniel Castillos. Essa participação tem sido alvo de questionamentos no meio interno da Frente Ampla (FA), inclusive dentro do Movimento de Participação Popular. A maioria dos setores da Frente Ampla considera que o envio de uma representação oficial foi um erro, e as críticas ao chanceler Mario Lubetkin só crescem. A Mesa Política da FA emitiu uma declaração na qual “repudia o espaço promovido pelo governo Trump” como “uma nova tentativa de ingerência na soberania dos povos da América Latina, ao pretender encobrir, em discursos contra o terrorismo, sua vocação imperialista de dominação”.

México, Brasil e Colômbia preferiram não comparecer. A presidente Claudia Sheinbaum justificou a ausência mexicana argumentando que se tratava de um encontro mais político do que de segurança e luta contra o crime organizado, razão pela qual decidiu que não era “prudente” enviar delegados, nem mesmo como “observadores”.

A nova caça às bruxas atingiu seu maior grau de cinismo quando Rubio afirmou que Cuba constitui “a capital mundial do terrorismo de esquerda radical”. Não foi um lapso. A frase já havia sido usada por ele no dia 4 de junho anterior e amplificada como tese oficial. A reunião ministerial fazia parte de um plano ardiloso, que seria seguido pela apresentação, na segunda-feira, dia 20, de um documento do Departamento de Estado intitulado Cuba: a capital do comunismo no século XXI, que tenta apresentar a ilha como o centro originário de uma rede que conectaria, ao longo de 67 anos, de maneira ininterrupta, guerrilhas latino-americanas, movimentos sociais legais nos Estados Unidos, organizações solidárias, universidades, grupos contra as deportações, Antifa, Black Lives Matter e o ativismo pró-Palestina.

Sem suporte probatório, com base em uma coleção de inferências e uma retórica de “culpabilidade por associação”, o relatório pretende reconstruir a “história completa” da espionagem e da suposta subversão de Cuba em território estadunidense. Mas sua ambição vai além de registrar operações de inteligência comprovadas ou o apoio histórico de Havana a organizações armadas. Tenta demonstrar uma tese impossível de provar: Cuba teria desenvolvido, desde o triunfo revolucionário em 1959, uma guerra integral contra os Estados Unidos por meio de espionagem, sabotagem, propaganda, infiltração ideológica, organizações aliadas e terrorismo de esquerda. A partir daí, cada capítulo seleciona fatos que tentam se encaixar nessa conclusão prévia.

À maneira de um livro branco, o documento se organiza em torno de uma tese conspiratória clássica – semelhante àquele Testemunho de uma nação agredida, difundido pelo Comando Geral do Exército uruguaio em 1978 –, na qual a simples suspeita substitui a prova e a omissão de dados sobre as operações terroristas, as sabotagens, o bloqueio e as sanções de Washington contra a ilha fica fora do campo de análise. O relatório inverte a relação: Cuba age e os Estados Unidos, receptor quase passivo de uma agressão cubana, reage. A militarização do vocabulário faz o trabalho que a evidência não pode fazer. Uma bolsa de estudos torna-se recrutamento; uma delegação, treinamento; uma afinidade, cadeia de comando; uma organização solidária, frente de inteligência; um protesto, operação inimiga. O resultado não é apenas uma leitura enviesada do passado, mas uma categoria suficientemente elástica para criminalizar, no presente, atividades políticas e sociais legítimas dentro dos Estados Unidos e no exterior.

Além disso, quando subversão, terrorismo de esquerda, influência, frente e agente carecem de limites verificáveis, as categorias podem se estender da violência para o jornalismo, a academia, a defesa legal, a solidariedade, o protesto e a crítica à política externa. A suspeita por associação torna-se, então, um instrumento administrativo. A publicação também não pode ser separada da ofensiva discursiva de Rubio: a acusação central circulou antes do relatório. O documento a sistematiza, reveste-a de autoridade estatal e a devolve ao espaço público como se fosse o resultado neutro de uma investigação. É uma operação de violência macartista: primeiro se instala a mensagem, depois se produz o dossiê que parece confirmá-la e, em seguida, criminaliza-se, em primeiro lugar, os cidadãos estadunidenses. O relatório não apenas interpreta a história: prepara o terreno para vigiar, sancionar e criminalizar aqueles que questionem a política de Washington.