Argentina despenca no ranking mundial de direitos trabalhistas

03/06/2026 – De acordo com a central sindical internacional, desde que o governo assumiu, o país caiu duas categorias e compartilha com outros dez países as piores condições de trabalho do planeta. A CGT debaterá na OIT.

Por: Alfonso de Villalobos
@alfondevil

FONTE: Tiempo Argentino

Às vésperas da 114ª Conferência anual da Organização Internacional do Trabalho, sua ala sindical, a Confederação Internacional de Sindicatos (CIS), publicou sua atualização sobre os direitos dos trabalhadores em todo o planeta.

Segundo a própria organização liderada pelo seu secretário-geral belga, Luc Triangle, trata-se da “13ª edição do Índice Global de Direitos da CSI, o único estudo anual abrangente em escala mundial, focado na violação dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras”.

Detenções e limitação aos direitos de greve e protesto.
Foto: Tiempo Argentino

Em seu preâmbulo, o informe indica que ali se “destacam os desafios cada vez maiores enfrentados pelo movimento sindical mundial” em um contexto de, sustenta, crescentes “políticas regressivas de governos e empresas“.

O informe da CIS destaca o retrocesso da Argentina.

Nessa linha, destaca em escala global “um aumento de cinco pontos percentuais nas violações da liberdade de expressão e de reunião” em apenas um ano, bem como um “aumento drástico nos números de prisões e detenções de trabalhadores e seus representantes”.

Do mesmo modo, afirma que os trabalhadores enfrentam “um golpe de Estado dos bilionários contra a democracia – financiado pelos ricos e levado adiante por líderes autoritários e de extrema-direita”. No próprio resumo que serve de introdução, destacam que “a crescente influência da extrema-direita está colocando em perigo trabalhadores e sindicatos em países como Argentina e França, dois dos quatro países que descem de categoria em 2026″.

A Argentina agora compartilha o pódio com países que historicamente foram relegados em seus direitos e conquistas.

Por isso, mais adiante, afirma que “os 10 piores países para os trabalhadores em 2026 foram: Argentina, Belarus, Equador, Egito, Eswatini, Mianmar, Nigéria, Panamá, Tunísia e Turquia“.

Foto: @ATESanLuis

O estudo destaca que o agravamento dos direitos trabalhistas e sindicais consolidou uma situação na qual, durante 2025, “em 87% dos países foi violado o direito de greve; em 80% o direito à negociação coletiva; em 75% os trabalhadores foram excluídos do direito de fundar ou se filiar a um sindicato“. Além disso, pontua, “em 75% dos países foi impedido o registro de sindicatos, em 72% os trabalhadores não têm acesso à justiça ou têm acesso restrito e em 50% foi restringida a liberdade de expressão e de reunião”.

Tudo posto, o informe que analisa o desempenho dos direitos trabalhistas em todo o globo se detém particularmente no que ocorreu na Argentina, que é mencionada 24 vezes no estudo. Isso porque os direitos trabalhistas no país, segundo a CIS, deterioraram-se a tal ponto que a jogaram para a categoria 5 (direitos não garantidos), quando apenas um ano atrás estava na categoria 4 (violação sistemática de direitos) e dois anos atrás na categoria 3 (violação regular de direitos).

O curioso é que, aqui bem perto, do outro lado do Rio da Prata, os trabalhadores do Uruguai subiram da categoria 2 (violação repetida) para a 1 (violação esporádica), que compartilha com Alemanha, Áustria, Dinamarca, Irlanda, Islândia, Noruega e Suécia. Além disso, encontra-se entre os únicos três países do mundo, junto com Botsuana e Reino Unido (ambos passaram da 3 para a 2), que melhoraram sua categoria no último ano.

O estudo destaca que “a classificação da Argentina piorou pelo segundo ano consecutivo, situando-se na categoria 5, o pior nível já alcançado neste Índice por este país sul-americano“. Para a CIS, “isso representa uma queda brusca e sem precedentes da categoria 3 para a 5 em apenas dois anos: um retrocesso que vai da existência de violações regulares dos direitos para uma situação em que os trabalhadores não têm seus direitos garantidos”. Ao explicar a situação, o informe indica que “desde sua chegada ao poder em 2023, o presidente de extrema-direita Javier Milei liderou um programa radicalmente antissindical, minando direitos básicos dos trabalhadores, liberdades civis e a atividade sindical”. É por isso que, continua mais abaixo, “a Argentina passou a fazer parte da lista dos 10 piores países do mundo para os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras“.

Em detalhe, denuncia que o governo impôs normas que indicam que “durante os conflitos de negociação coletiva serão impostos níveis obrigatórios de serviços mínimos, e as autoridades poderão definir tais níveis e aplicar sanções por descumprimento” e que “trabalhadores e sindicalistas enfrentam abusos sistemáticos e uma redução do espaço cívico”.

Além disso, relata fatos pontuais como o que ocorreu em agosto de 2025, quando “a polícia deteve Federico Giuliani, secretário-geral da seção cordobesa da Associação de Trabalhadores do Estado – Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma (ATE-CTA A), junto com outros 14 manifestantes”. Após sua libertação, destacam que “Giuliani fugiu do país como refugiado político“. Por outro lado, ressaltam que “em várias sedes sindicais, incluindo a sede do sindicato dos trabalhadores do vidro, ocorreram infiltrações e atos de vandalismo”.

Mas, além disso, destacam que, assim como em outros países como Costa Rica e El Salvador, “na Argentina, as autoridades interferiram nos assuntos sindicais“.

O documento servirá de respaldo em escala mundial às denúncias que a direção da CGT e das CTAs apresentarão no conclave trabalhista que ocorre em Genebra. No dia 5 de junho, está previsto que apresente seu informe e defesa o secretário de relações internacionais da CGT, Gerardo Martínez.