17/05/2025 | Da Guerra Fria à atual escalada na Ucrânia, a dissuasão nuclear baseada no medo racional está mudando para uma lógica de confronto aberto. Com tratados em ruínas, novas potências atômicas e ameaças críveis vindas de Moscou, o mundo navega em uma névoa estratégica onde um erro de cálculo poderia desencadear o que durante décadas se conseguiu evitar: uma guerra maior.
Por: Lic. Alejandro Marcó del Pont
FONTE: El tábano economista

A única forma de evitar uma guerra maior é restaurar o medo estratégico (Sergey Karaganov)
Imagine por um momento que você está em um quarto escuro ao lado de um desconhecido. Ambos seguram um revólver carregado. Você sabe que, se apertar o gatilho, ele provavelmente fará o mesmo, e os dois acabarão feridos ou mortos. Essa certeza incômoda, esse medo compartilhado foi, durante décadas, o mecanismo que evitou uma guerra direta entre as grandes potências. Chamava-se dissuasão nuclear.
Pode parecer uma forma estranha de paz: fria, calculada e baseada na ameaça permanente de destruição. No entanto, funcionou. Ninguém queria ser o primeiro a morrer. Durante grande parte da segunda metade do século XX, o medo racional impediu que a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética resultasse em um conflito nuclear total.
Hoje, esse quarto parece menor. As luzes piscam. Os atores são mais numerosos e alguns começam a insinuar que talvez valha a pena atirar primeiro para lembrar ao adversário quem tem a iniciativa. Estamos transitando, quase sem perceber, da lógica clássica da dissuasão para uma dinâmica mais próxima do confronto aberto. O que está em jogo já não são apenas doutrinas militares ou sistemas de mísseis. É a vida de milhões de pessoas comuns que mal conhecem os nomes dos tratados que estão desaparecendo.
Para entender como chegamos até aqui, convém recuar algumas décadas. No final da Segunda Guerra Mundial, o mundo descobriu o poder devastador do átomo em Hiroshima e Nagasaki. Muito rapidamente, Estados Unidos e União Soviética começaram a acumular arsenais nucleares capazes de destruir a civilização várias vezes. Surgiu então uma ideia paradoxal: as armas mais destrutivas da história serviriam não para vencer guerras, mas para impedi-las.
O estrategista nuclear Bernard Brodie resumiu essa transformação com uma frase célebre: “o propósito principal das forças militares já não seria vencer guerras, mas evitar que elas acontecessem”. A lógica era brutal, mas simples. Se uma potência atacasse primeiro, a outra manteria capacidade suficiente para responder com um golpe devastador. O resultado seria o suicídio mútuo.
Assim nasceu a doutrina da Destruição Mútua Assegurada, conhecida como MAD, na sigla em inglês. Dois gigantes se observavam permanentemente, sabendo que qualquer erro poderia significar o fim do mundo. Houve crises gravíssimas: Berlim, Coreia, os mísseis soviéticos em Cuba em 1962. Houve guerras indiretas na Ásia, na África, mas, no último momento, o medo do abismo acabava impondo prudência. O equilíbrio do terror evitou uma conflagração global.
Aquela estabilidade, no entanto, dependia de certos elementos específicos: atores relativamente racionais — que hoje não existem —, linhas de comunicação abertas, doutrinas conhecidas e uma estrutura bipolar relativamente clara. Washington e Moscou podiam se odiar profundamente, mas compreendiam os limites. Ambos sabiam que cruzar certas linhas levaria à aniquilação.
Quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, e a União Soviética se dissolveu, em 1991, grande parte do Ocidente acreditou que essa etapa havia terminado definitivamente. Parecia o triunfo irreversível do modelo liberal ocidental. O cientista político Francis Fukuyama chegou a falar do “fim da história”, entendendo que a democracia liberal e o capitalismo haviam derrotado seus competidores ideológicos.
Nesse clima de otimismo, a dissuasão nuclear perdeu centralidade no debate público ocidental. Os Estados Unidos emergiram como a única superpotência global e começaram a expandir sua influência política, econômica e militar. A OTAN, criada em 1949 para conter a União Soviética, não foi dissolvida após a Guerra Fria. Pelo contrário, começou a avançar em direção à Europa Oriental e o fez por 1.300 quilômetros.
Polônia, Hungria e República Tcheca ingressaram em 1999. Mais tarde, fizeram o mesmo os países bálticos, Romênia, Bulgária e outras nações do antigo bloco soviético. Para muitos europeus orientais, especialmente aqueles que haviam vivido décadas sob influência de Moscou, o ingresso na OTAN representava uma garantia de proteção.
Mas o que em Varsóvia ou Bucareste era visto como uma expansão da segurança, em Moscou era interpretado de maneira completamente distinta. A Rússia percebeu o avanço da aliança atlântica como uma ameaça estratégica crescente. O problema não era apenas militar, mas histórico.
A Rússia construiu grande parte de sua memória estratégica sobre o trauma das invasões. Napoleão chegou até Moscou em 1812. Hitler invadiu a União Soviética em 1941, causando dezenas de milhões de mortos. A profundidade territorial tornou-se, para os estrategistas russos, um elemento essencial de sobrevivência nacional. Por isso, a aproximação gradual de infraestruturas militares ocidentais em direção às suas fronteiras foi percebida como uma redução alarmante desse espaço defensivo.
Durante os anos 1990, a Rússia não tinha força suficiente para modificar esse processo. Sua economia colapsava, o Estado estava enfraquecido e o poder militar havia perdido grande parte de suas capacidades. No entanto, essa situação começou a mudar com a chegada de Vladimir Putin.
Especialmente após seu discurso na Conferência de Segurança de Munique, em 2007, Putin começou a estabelecer limites cada vez mais claros diante do avanço ocidental. A guerra da Geórgia em 2008, a anexação da Crimeia em 2014 e o conflito no Donbass foram sinais progressivos de que Moscou estava disposta a usar a força para impedir uma expansão adicional da influência ocidental sobre o que considera sua esfera vital de segurança.
A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 representou o ponto de ruptura definitivo. O que o Kremlin imaginava como uma operação rápida acabou se tornando uma guerra longa, custosa e extremamente destrutiva. Para a Rússia, a Ucrânia constituía uma linha vermelha existencial. Para a Ucrânia, e para grande parte do Ocidente, tratou-se de uma agressão imperial injustificável.
Nesse contexto, a dissuasão nuclear voltou ao centro da política internacional. A Rússia lembrou repetidamente que possui um dos maiores arsenais atômicos do planeta. Os alertas, primeiro ambíguos e depois mais explícitos, começaram a fazer parte da linguagem cotidiana do conflito.
Um dos intelectuais que expressou essa transformação com maior crudeza foi Sergey Karaganov. Próximo historicamente do establishment estratégico russo, Karaganov argumentou, a partir de 2023, que o Ocidente havia “perdido o medo” da guerra nuclear. Segundo sua visão, a expansão da OTAN, as defesas antimísseis e a superioridade convencional ocidental erosionaram a credibilidade da dissuasão clássica.
Sua proposta é radical: para restaurar a estabilidade estratégica, seria necessário devolver ao Ocidente o temor real a uma escalada nuclear. Karaganov chegou a sugerir que a Rússia deveria estar disposta a atingir objetivos em países europeus, se necessário, para quebrar a vontade ocidental de sustentar a Ucrânia. Sua lógica parte de uma ideia simples: a dissuasão só funciona quando o medo é crível. Se o adversário deixa de acreditar que existe vontade de usar a força, o equilíbrio se rompe. Por isso, ele propõe reduzir o limiar nuclear e contemplar o uso limitado de armas táticas como instrumento de coerção política.
Mesmo dentro da Rússia, essas posições geram controvérsias. Alguns as consideram meras manobras psicológicas destinadas a pressionar o Ocidente. Outros acreditam que expressam uma transformação mais profunda da doutrina estratégica russa. Em qualquer caso, revelam uma mudança importante: a passagem de uma dissuasão relativamente estável para uma dinâmica de intimidação ativa.
As declarações de Karaganov também cumprem funções políticas internas. Em meio a uma guerra prolongada, com sanções econômicas, desgaste militar e pressão social, o Kremlin precisa projetar firmeza diante de sua população. Mas, ao mesmo tempo, o endurecimento retórico pode ocultar outra realidade: uma crescente necessidade de negociar.
Na política internacional, os atores costumam iniciar as negociações a partir de posições máximas para depois recuar gradualmente — é para isso que servem as declarações de Karaganov. Moscou exige neutralidade ucraniana, reconhecimento territorial e limites à OTAN porque tenta construir uma posição de força a partir da qual obter concessões.
Enquanto isso, o sistema global de controle nuclear se enfraquece. O tratado New START, o último grande acordo de limitação de armas estratégicas entre Washington e Moscou, expirou em fevereiro de 2026 sem uma substituição clara. Isso deixa aberta a porta para uma nova corrida armamentista. Tanto a Rússia quanto os Estados Unidos modernizam seus arsenais. Surgem mísseis hipersônicos, sistemas de inteligência artificial aplicados à defesa, capacidades cibernéticas e armas de precisão cada vez mais sofisticadas. O tempo para tomar decisões também se reduz drasticamente. Onde antes havia horas para verificar alertas, agora podem existir apenas minutos.
A Europa não é o único cenário onde a lógica da dissuasão se torna mais instável. No sul da Ásia, Índia e Paquistão oferecem outro exemplo alarmante de como o equilíbrio nuclear pode coexistir com conflitos permanentes. Ambos os países realizaram testes nucleares em 1998 e desde então mantêm uma rivalidade marcada por disputas territoriais, terrorismo e guerras limitadas. A região da Caxemira continua sendo um dos pontos mais perigosos do planeta. Diferentemente da Guerra Fria, aqui duas potências nucleares compartilham fronteiras militarizadas e tempos de reação extremamente curtos.
O Paquistão, menor e mais vulnerável economicamente, percebe a ameaça indiana como existencial. A Índia, por sua vez, tenta se consolidar como potência regional e global sem ficar presa à estratégia nuclear paquistanesa. O resultado é uma tensão permanente onde qualquer atentado terrorista ou incidente fronteiriço poderia escalar rapidamente.
Para as populações civis, essas tensões têm consequências concretas. Milhões de pessoas vivem sob a possibilidade permanente de uma guerra maior. Um conflito aberto afetaria o abastecimento de água do Indo, provocaria deslocamentos massivos e poderia desencadear uma catástrofe humanitária regional.
A China observa atentamente essa dinâmica enquanto expande e moderniza seu próprio arsenal nuclear. Pequim entende que o sistema internacional atravessa uma transição em direção a uma estrutura multipolar muito mais incerta do que a bipolaridade da Guerra Fria.
No leste asiático, a situação também não é estável. A Coreia do Norte continua desenvolvendo capacidades nucleares e de mísseis, enquanto a Coreia do Sul e o Japão reforçam seus sistemas defensivos sob o guarda-chuva estratégico norte-americano.
No Oriente Médio, a ambiguidade nuclear de Israel continua sendo um fator central de equilíbrio e tensão regional. Ao mesmo tempo, as discussões sobre o papel da Agência Internacional de Energia Atômica refletem as dificuldades de aplicar mecanismos de controle nuclear de maneira uniforme e crível.
A ameaça mais perigosa continua sendo o erro de cálculo. A história nuclear está cheia de falsos alarmes, erros técnicos e decisões tomadas sob enorme pressão psicológica. Um míssil interpretado incorretamente, um ataque cibernético mal atribuído ou um incidente regional fora de controle poderiam desencadear uma escalada impossível de deter.
No entanto, o panorama não é completamente desesperançador. O tabu nuclear continua forte. Nenhum líder realmente ignora as consequências de uma guerra atômica. Mesmo os discursos mais agressivos costumam conviver com contatos diplomáticos discretos e negociações indiretas.
O paradoxo central de nossa época é que o medo continua sendo necessário. Durante décadas, o temor compartilhado impediu que as superpotências cruzassem certas linhas. O problema aparece quando a dissuasão deixa de ser uma ferramenta defensiva e começa a se transformar em intimidação ofensiva.
Hoje, o mundo já não está organizado em torno de dois atores relativamente previsíveis. O sistema é multipolar, fragmentado e muito mais difícil de administrar. Há mais potências nucleares, mais conflitos regionais e mais possibilidades de erros simultâneos.
Por isso, retornar a uma dissuasão estável exige algo cada vez mais escasso: empatia estratégica. Isso não significa justificar agressões nem aceitar zonas de influência ilimitadas, mas compreender como o outro percebe suas ameaças existenciais. As guerras costumam começar quando os atores deixam de entender os temores de seus adversários.
Também requer reconstruir mecanismos de controle e comunicação. Tratados de limitação de armas, linhas diretas entre governos, transparência militar e canais diplomáticos permanentes foram ferramentas fundamentais durante a Guerra Fria. Sua erosão atual aumenta perigosamente a incerteza.
Vivemos uma encruzilhada histórica. A dissuasão nuclear ajudou a evitar uma guerra mundial porque o medo era mútuo, racional e crível. Mas se esse medo se transformar em histeria, humilhação ou desejo de demonstrar força permanente, o equilíbrio pode se quebrar.
A esperança reside em que os líderes lembrem de uma verdade elementar que já conheciam aqueles que atravessaram os piores momentos da Guerra Fria: os revólveres carregados em um quarto escuro não estão ali para ser disparados. Estão ali para lembrar a todos o que aconteceria se alguém perdesse a razão.
