O comércio em terapia intensiva

04/05/2026 | A queda do poder aquisitivo, o desabamento das vendas e a deterioração do mercado interno configuram um cenário crítico. O comércio lidera o fechamento de empresas e expõe, com rudeza, o pulso real da economia argentina.

FONTE: Data política e económica

O comércio voltou a ocupar o centro da cena econômica, não por seu dinamismo, mas por sua deterioração. Na Argentina atual, o setor funciona como um termômetro preciso: quando o consumo cai, os primeiros sinais aparecem nas portas de lojas fechadas. Hoje, essa imagem se multiplica por todo o país.

Os dados mais recentes confirmam a magnitude do fenômeno. No último ano, desapareceram mais de 3.100 empresas comerciais, tornando o setor o principal afetado pelo fechamento de firmas. Por sua vez, o comércio registrou uma queda de 7% em fevereiro, consolidando-se como um dos maiores fatores de arrasto da atividade econômica.

Não se trata apenas de um problema setorial. É a expressão visível de um processo mais profundo: o enfraquecimento do mercado interno.

O consumo em retrocesso sustentado

A deterioração do consumo é o eixo estrutural da crise. As vendas em supermercados, atacadistas e comércios de vizinhança mostram quedas persistentes. Em março, o consumo de massa voltou a se contrair e acumulou um primeiro trimestre negativo, com quedas que, nas grandes redes, oscilaram entre 6% e 7%.

A tendência não distingue regiões nem formatos comerciais. Em supermercados, as vendas caíram nas 24 jurisdições do país, enquanto nos comércios de bairro a baixa também é generalizada.

Mesmo em termos históricos, o retrocesso é significativo. Em algumas regiões, como o NEA (Nordeste Argentino) e o NOA (Noroeste Argentino), o consumo em supermercados se reduziu em mais de um terço em comparação a 2023, evidenciando uma deterioração acelerada do poder de compra.

Salários em queda e demanda debilitada

O fator determinante é a renda. A perda do poder aquisitivo atravessa todos os segmentos sociais. Os salários reais acumulam quedas importantes em relação a 2023: quase 38% no setor público nacional, mais de 15% no âmbito provincial e também retrocessos no setor privado registrado.

Paralelamente, as políticas de assistência social perderam capacidade de sustento. Programas como a AUH (Pensão Universal por Filho) e o Cartão Alimentar cobrem hoje menos de 20% do custo de vida, reduzindo o piso mínimo de consumo.

O resultado é um ciclo contracionista: menores rendas geram menos consumo, o que impacta diretamente as vendas e, por fim, a sobrevivência das empresas.

Fechamentos, ajuste e mudança na estrutura econômica

O impacto sobre o tecido produtivo é contundente. Durante 2025, fecharam mais de 10.000 empresas no país, e o número ultrapassa 22.600 se considerado o período desde o final de 2023.

O comércio lidera esse processo, seguido por transporte, serviços imobiliários e indústria de transformação. Juntos, esses setores explicam cerca de 90% da destruição líquida de empresas.

Ao mesmo tempo, a estrutura econômica mostra uma reconfiguração preocupante: enquanto crescem atividades primárias e financeiras, recuam os setores que geram emprego e encadeamentos produtivos.

Em termos concretos, isso implica menos trabalho, menor circulação de renda e maior fragilidade social.

Comércios no limite

No território, a crise assume formas concretas. Comerciantes que reduzem horários, diminuem equipes ou simplesmente fecham suas lojas. Setores como vestuário, calçados, eletrodomésticos e artigos para o lar aparecem entre os mais atingidos.

O aumento de custos — tarifas, aluguéis, impostos — agrava o cenário. Em muitos casos, as vendas já não são suficientes para cobrir despesas operacionais básicas, o que acelera decisões de fechamento ou endividamento.

A situação é particularmente crítica para o comércio de vizinhança, que depende do fluxo diário de renda das famílias. Quando esse fluxo é interrompido, a atividade se paralisa.

Expectativas negativas e falta de horizonte

As perspectivas não mostram sinais claros de reversão. Mais de 80% das empresas preveem que as vendas permanecerão iguais ou cairão, enquanto uma ampla maioria não projeta contratar pessoal.

O problema não é apenas conjuntural. A combinação de ajuste fiscal, queda de renda e ausência de políticas de estímulo ao mercado interno configura um cenário onde a recuperação parece distante.

Alguns setores mostram leves recuperações ou dinâmicas específicas — como o comércio eletrônico —, mas não são suficientes para compensar a queda generalizada do consumo.

O sintoma de uma crise mais profunda

A deterioração do comércio não é um fenômeno isolado: é a manifestação mais visível de uma crise econômica que atravessa toda a sociedade.

Quando o consumo se retrai, não apenas a atividade se esfria: rompe-se o tecido produtivo, perdem-se empregos e a coesão social se enfraquece.

Nesse contexto, o comércio deixa de ser um mero setor para se tornar um indicador-chave. Hoje, esse indicador mostra claramente o momento: uma economia que cresce em algumas margens, mas se contrai em sua base mais vital, o mercado interno.

A questão já não é se o comércio está em crise, mas sim quanto tempo mais ele pode resistir sem uma recomposição real do poder aquisitivo e da demanda.