15/04/2026│Há quase dois anos, em tom ensaístico mas premonitório, estabelecemos um paralelo entre a experiência fundamentalista de Girolamo Savonarola na Florença renascentista e o que já intuíamos que seria o governo de Javier Milei, pelas características de ambos os personagens: messianismo, fé cega em dogmas, desprezo pela realidade e uma promessa de salvação (eterna para um, terrena para o outro) em troca do sacrifício presente.
Hoje, à luz dos acontecimentos políticos e da crise econômica para a qual Milei levou a Argentina, lamentamos não termos nos enganado. Muito pelo contrário, ficamos aquém. O que se segue é a atualização daquela análise, incorporando os fatos recentes que confirmam, com uma fidelidade quase assustadora, o trágico paralelismo histórico.
Por Ramiro Carlos H. Caggiano Blanco (*)

Em 1494, na Florença renascentista, chegou ao poder Girolamo Savonarola, um frade dominicano carismático que instituiu um regime despótico inspirado em ideias religiosas ultramontanas. Acedeu ao governo criticando os excessos dos ricos e prometendo combater a corrupção da Igreja, algo que agradava ao povo. No entanto, acabou se aliando à nata daqueles que proclamava combater: os Médici.
Hoje, mais de 500 anos depois, a história parece se repetir na Argentina. Javier Milei chegou à presidência com um discurso similar: acabar com a “casta” política e os privilégios dos “de sempre”. Também ele acabou se aliando ao establishment que dizia enfrentar, encarnado na figura de Mauricio Macri.
O paralelismo entre ambas as figuras é notável. Savonarola prometia a salvação eterna em troca de se despojar dos prazeres mundanos: festas populares, literatura, pintura, roupas suntuosas. Milei, em nome do “Deus Mercado”, promete a prosperidade futura desde que nos resignemos a abandonar os “luxos” no presente: sair de férias, ir ao cinema, encher o tanque de combustível, ter saúde e transporte dignos.

Na política, a estratégia é idêntica: assim como Savonarola usava o Papa Alexandre VI como alvo de críticas para construir e legitimar seu poder, Milei se vale da figura dos Kirchner. Ambos precisam de um inimigo externo para coesionar seus seguidores.
Mas onde o paralelismo atinge seu ponto mais trágico é na sua fé cega nos dogmas. Savonarola defendia que Cristo era o Rei de Florença e que a cidade deveria ser governada por princípios religiosos, contrapondo o ascetismo à florescente Renascença italiana. Milei despreza as normas da Administração Pública que regem o funcionamento do Estado e propõe suplantá-las pelas alocadas soluções ditadas pela Escola Austríaca de Economia, que de tão radicais nunca foram aplicadas integralmente em nenhum país do mundo.
Para seu propósito moralizador, Savonarola organizava a “Fogueira das Vaidades” na praça della Signoria, onde queimava os objetos suntuosos oferecidos pela nobreza. Também cortava a língua dos blasfemos, criava impostos para quem levasse uma vida desordenada e aplicava penas severíssimas para os homossexuais. No mesmo sentido, embora atenuado pelos tempos modernos, Milei destrói reputações com seu exército de trolls e jornalistas acólitos, corta planos sociais dos “planeiros”, não entrega medicamentos a quem precisa, demite massivamente os “parasitas” do Estado (para depois contratar os seus), fecha os meios públicos e proíbe o uso da linguagem inclusiva.

O fracasso das promessas messiânicas de Milei (atualização 2026)
Em 14 de abril de 2026, o INDEC anunciou que a inflação de março foi de 3,4%, acumulando 9,4% no primeiro trimestre e uma taxa interanual de 32,6%. É o décimo mês consecutivo de alta, o dado mais alto em um ano. Longe da prometida “trajetória decrescente”, a realidade mostra que o sacrifício exigido da população não trouxe os frutos anunciados.

A reação de Milei foi a confirmação definitiva de seu perfil savonaroliano. Em vez de reconhecer o erro de sua gestão ou mostrar empatia pelo crescente sofrimento popular, o mandatário se fechou em seus dogmas e realizou o que só pode ser descrito como um galimatias léxico: “Isso não é inflação estritamente. É que deu um salto no nível de preços por mudanças nos preços relativos”.
Essa distinção artificiosa entre “inflação” e “alta de preços” é o equivalente moderno da teologia de Savonarola: uma tentativa de redefinir a realidade para que ela se ajuste às suas escrituras sagradas. Em seguida, culpou fatores exógenos (a guerra no Oriente Médio, os efeitos sazonais) e, claro, o “kirchnerismo” que tenta “quebrar o equilíbrio fiscal”.
Mas onde o paralelismo atinge seu ponto mais trágico é na sua fé suicida na teoria econômica. Diante do fracasso de sua principal promessa de campanha, Milei não pediu perdão nem corrigiu a rota. Ao contrário, redobrou a aposta com uma frase que ficará para a história da negação: “Temos que ter paciência. Nós não vamos ir contra a teoria econômica e a evidência empírica”.
A evidência empírica é que seu plano não funciona, mas para um convertido, a fé se fortalece diante da adversidade. Assim como Savonarola prometia a salvação eterna em troca do despojamento mundano, Milei promete uma prosperidade futura que nunca chega em troca do sacrifício presente.
O final anunciado
A “República de Savonarola” durou relativamente pouco tempo: de 1494 a 1498. Foi excomungado pela igreja, preso, torturado e condenado à morte por heresia e sedição. Finalmente, foi queimado na praça della Signoria pelo povo, cansado de sua tirania.
Nos tempos modernos, não se queima nem enforca governantes em praça pública. Mas Javier Milei pode perecer na “fogueira midiática” e, sobretudo, nas urnas. O povo argentino, cujos salários e aposentadorias continuam perdendo a corrida contra os preços, pode acabar cobrando a conta. A pergunta é quanto dano mais este novo Savonarola de quinta categoria terá causado antes que isso aconteça. O que mais os assemelha é que nem Savonarola nem Milei pretenderam ou pretendem governar administrando justiça e intermediando os conflitos de interesses, existentes em toda sociedade, como um governante normal faria.
Em última instância, ambos desprezam o povo que os levou ao poder porque estão imbuídos de um messianismo sem par, uma fé cega em seus dogmas, teocráticos um e mercadológicos o outro, e querem passar para a história como aqueles que sacrificaram suas vidas nessa empreitada. Savonarola, à sua maneira, já conseguiu e hoje tem uma modesta estátua em sua Ferrara natal. Tomara que o argentino não tenha tanta sorte.
(*) Bacharel em direito, doutor pela USP e comunicador social.
