23/02/2025│Um relatório privado alerta que o aumento da taxa de atividade se sustenta na incorporação de idosos ao mercado de trabalho. A maioria acessa empregos informais e de baixa qualidade, em um contexto de deterioração previdenciária e expansão do trabalho precário.
FONTE: elDiarioAR

O mercado de trabalho mostra um crescimento da atividade que, longe de refletir um dinamismo generalizado, apoia-se na incorporação de idosos. Segundo o último relatório do Instituto Argentina Grande (IAG), a taxa de atividade atingiu 48,6%, o registro mais alto para um terceiro trimestre desde 2016. No entanto, o documento alerta que essa alta responde em grande medida ao fato de que cada vez mais aposentados voltam ao mercado de trabalho para complementar a renda e cobrir gastos básicos.
Entre as pessoas com 66 anos ou mais, a atividade cresceu 11% em comparação anual. O IAG define essa inserção como “sobrevivencial”, ou seja, não responde a uma escolha, mas sim à erosão do poder aquisitivo dos benefícios previdenciários.

Os exemplos abundam. Na Cidade de Buenos Aires, Marta Beatriz Fernández, 75 anos, aposentada da administração pública portenha, começou há um ano a limpar casas de conhecidos no bairro abastado de Caballito e em Almagro.
“Trabalhei 35 anos no Estado. Quando me aposentei, pensei que ia viver justa, mas tranquila. Com o que recebo hoje, não pago medicamentos, despesas de condomínio e supermercado”, conta.
Até pouco tempo, seus dois filhos a ajudavam a completar os gastos. “Agora já não podem. Um deles teve o segundo filho há três meses e estão com a corda no pescoço. Então eu saio para limpar para me sustentar e, se puder, dou uma ajuda a eles”, explica a mulher que trabalha quatro vezes por semana.
A cena se repete em diferentes bairros portenhos. “Muitíssimos aposentados e aposentadas ou pensionistas estão trabalhando com limpeza, cuidado de doentes, venda ambulante, jardinagem e outros ramos“, assinala Nora Biaggio, professora aposentada e referente do Plenário de Trabalhadores Aposentados.
Com uma aposentadoria mínima que, com o bônus incluído, gira em torno de 429.000 pesos, “ninguém pode viver um mês”, afirma. “Só os medicamentos, que agora têm que ser pagos, consomem a maior parte dos benefícios”.
Trabalho por necessidade
O IAG vincula o fenômeno ao encarecimento de medicamentos e serviços de saúde, assim como à perda do poder aquisitivo das aposentadorias. Paralelamente, o trabalho desprotegido atinge 44,2% dos ocupados e supera pela primeira vez os 6 milhões de pessoas.
A precarização também atravessa a vida de Raúl Osvaldo Benítez, 80 anos, que mora em um apartamento alugado no bairro Chacarita. Durante quatro décadas, trabalhou em uma gráfica na Cidade. Aposentou-se há 15 anos, mas desde 2024 dirige um Uber pelo menos oito horas por dia.
“Se não saio para trabalhar, não consigo pagar o aluguel. Simples assim”, diz. “Entre o aluguel, as despesas de condomínio e a comida, a aposentadoria acaba em cinco dias”.
Raúl começa às 10 da manhã e volta à tarde. “É cansativo e triste. O corpo não é o mesmo. Mas não tenho outra escolha”, acrescenta.
Biaggio alerta que essa inserção se dá quase sempre em condições informais. “São empregos sem carteira assinada. É, além disso, um esforço extra que os idosos fazem, tendo que se deslocar, cumprir horário e sustentar tarefas físicas exigentes”, sustenta. “O dado de crescimento da atividade é um sintoma de deterioração social, de maneira nenhuma pode ser um indicador de recuperação econômica”.

O avanço do “desemprego encoberto”
O dossiê do IAG também incorpora um indicador de “desemprego encoberto”, que inclui quem busca trabalho mas só consegue ocupações de poucas horas e alta precariedade. A taxa chega a 13,8%, mais do que o dobro do desemprego oficial (6,6%).
No caso dos aposentados, o desemprego encoberto cresceu 34,1% na comparação anual, refletindo que muitos precisam trabalhar mais horas para sustentar a renda básica.

Enquanto isso, a atividade dos jovens entre 18 e 26 anos caiu 1,6%, o que reforça o caráter atípico do fenômeno: o mercado de trabalho não se expande por dinamismo econômico, mas sim pela necessidade dos idosos.
“Eu já trabalhei minha vida toda”, diz Marta. “Não deveria estar limpando casas aos 75 anos”.
“É realmente triste ter que fazer de motorista aos 80 anos”, concorda Raúl. “Mas o que mais posso fazer?”.
Para Biaggio, o quadro é claro: “Não estamos diante de aposentados que buscam se manter ativos. Estamos diante de pessoas que, depois de ter trabalhado décadas, voltam ao mercado porque a aposentadoria não basta para viver“.
