25/11/2025 | Desde o início do governo Milei, o salário mínimo, vital e móvel acumula uma queda de 35,2% no seu poder de compra, de acordo com o levantamento do Cifra-CTA.
Por Cristian Carrillo
FONTE: El Destape

A brutal desvalorização de dezembro de 2023, que duplicou o preço do dólar em 24 horas e marcou o início deste governo, provocou uma grande perda inicial. Desde o início do governo de Javier Milei, o salário mínimo, vital e móvel acumula uma queda de 35,2 por cento no seu poder de compra, segundo o informe do Centro de Investigação e Formação da Central de Trabalhadoras e Trabalhadores da Argentina (Cifra-CTA).
Com a gestão do La Libertad Avanza chegou a paralisação das negociações coletivas livres. Desde que a administração libertária assumiu, as cinco reuniões do Conselho Nacional do Emprego, da Produtividade e do Salário Mínimo que ocorreram terminaram sem acordo entre o setor empresarial e os representantes dos trabalhadores. Como resultado, foi a Secretaria do Trabalho que determinou os aumentos nominais – praticamente equivalentes à proposta empresarial –, os quais não só não buscaram recuperar o poder de compra perdido após a desvalorização, como também continuaram a erodi-lo.
“A perda sofrida durante este Governo acumula-se com retrocessos anteriores, por isso o salário mínimo situou-se em outubro de 2025 em um nível real que é 45,6 por cento mais baixo que em novembro de 2019, ao final do governo de Cambiemos, e 58,4 por cento menor que em novembro de 2015, destaca o informe do Cifra.
Entre o mínimo e a média
Atualmente, a renda mínima representa menos de um quinto do salário médio dos trabalhadores registrados do setor privado. “Após este retrocesso histórico, o valor real do salário mínimo é inferior ao que vigorou durante a maior parte da década de 90 e na crise final do regime de Conversibilidade, quando, como ocorre hoje, esta política havia sido deliberadamente abandonada como ferramenta para determinar pisos salariais e impulsionar uma menor desigualdade na renda”, ressalta o informe da central sindical.
De acordo com estimativas do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag), o salário mínimo na Argentina é o mais baixo de toda a região. O governo de Milei utilizou o salário dos trabalhadores como âncora do ajuste e da desaceleração da inflação. Quem encabeça o ranking atualizado em novembro é a Costa Rica, com 729 dólares. Seguem-se Uruguai (593 dólares), Chile (567 dólares) e Equador (470 dólares). Na lanterna encontra-se a Argentina, com apenas 225 dólares, abaixo da Bolívia (395 dólares) ou do Paraguai (411 dólares), entre outros.

Se a comparação do salário mínimo for feita com as linhas de pobreza e de indigência, revela-se uma situação ainda pior que a de 2001. Em outubro, uma família tipo (composta por dois adultos e duas crianças) necessitou de quase quatro salários mínimos para cobrir o custo da cesta básica que determina a linha de pobreza, que ronda os 1,2 milhão de pesos.
Menos salário e emprego
Longe de gerar o emprego formal prometido, a desregulamentação mileista só gerou maior informalidade laboral, que subiu ao seu nível mais alto nos últimos 17 anos, marcando um retrocesso na qualidade do emprego e na proteção social dos trabalhadores argentinos. Enquanto grandes concentrações urbanas como a Área Metropolitana de Buenos Aires (AMBA) tentam resistir ao embate, as províncias do Noroeste Argentino (NOA), do Nordeste (NEA) e de Cuyo tornaram-se o epicentro desta crise trabalhista. Nessas regiões, a proporção de trabalhadores sem nenhum tipo de registro formal supera consistentemente 50%, um número alarmante que fala de uma precarização sistêmica, segundo um informe do Instituto Argentina Grande.
Desde o início das reformas libertárias, a economia exibe a perda de mais de 220.000 postos de trabalho assalariados privados e o fechamento de quase 20.000 empresas. Este êxodo do emprego registrado para a esfera informal é a manifestação direta de um marco regulatório percebido como hostil para o investimento e a formalização.

A desregulamentação, supostamente desenhada para flexibilizar e dinamizar, incentiva a sonegação de custos trabalhistas e previdenciários, transferindo o peso da crise diretamente para o trabalhador. A formalidade torna-se, para muitos empregadores, um luxo inatingível ou desnecessário ante a falta de incentivos e a contração geral da atividade econômica.
O informe revela que a disparidade salarial pré-existente entre a Área Metropolitana de Buenos Aires (AMBA) e o interior do país exacerbou-se como motor da informalidade. Em províncias onde os salários médios já eram significativamente mais baixos que na Capital, a pressão para reduzir custos foi canalizada diretamente para a informalização massiva. Os empregadores no Interior, enfrentando uma demanda interna fraca e a necessidade de competitividade, encontram na falta de registro uma via rápida para equiparar seus custos trabalhistas com os de economias com menor proteção social. Isto gera um círculo vicioso: a informalidade freia o desenvolvimento de mercados internos sólidos, já que o trabalhador precarizado carece de poder de compra estável.
