A granada neoliberal: como o blindaje do Banco Central perpetua a desigualdade

28/08/2026│Por trás da promessa de autonomia do Banco Central se esconde o mesmo mecanismo que no Peru e no Brasil blindou suas autoridades, facilitou o extrativismo e transferiu renda dos trabalhadores para o capital financeiro. Um alerta para o Senado argentino.

Por Ramiro Carlos H. Caggiano Blanco

Enquanto Milei nos entretinha com seus insultos desaforados contra jornalistas, a Câmara dos Deputados deu sanção parcial ao projeto de reforma da Carta Orgânica do Banco Central da República Argentina (BCRA), uma das iniciativas econômicas prioritárias do governo. O projeto, que obteve 144 votos a favor, 102 contra e 9 abstenções, não apenas redefine a missão do órgão para focá-la primordialmente em “preservar o valor da moeda” — eliminando outros objetivos como emprego e desenvolvimento econômico — mas também introduz uma mudança institucional de grande envergadura. Essa mudança estabelece um novo e mais rígido regime para as autoridades do BCRA, que blinda o atual presidente, Santiago Bausili, ao exigir maioria de dois terços em ambas as casas do Congresso para sua remoção, um patamar difícil de ser alcançado por uma oposição fragmentada.

Esse aspecto da lei adquire particular relevância se considerarmos que Bausili é histórico sócio e homem de confiança do ministro da Economia, Luis Caputo, com quem compartilhou empreendimentos como a consultoria Anker. A reforma, que também proíbe o financiamento do Tesouro mediante emissão monetária, busca institucionalizar o princípio do “déficit zero” e o combate à inflação. No entanto, a posição blindada de Bausili — cuja gestão tem sido questionada pela oposição e marcada por seu incremento patrimonial e vínculos empresariais com o próprio Caputo — levanta interrogantes sobre a efetiva independência da autoridade monetária que o governo diz defender.

Após a aprovação na Câmara, o Senado — onde o oficialismo não conta com maioria própria — torna-se o palco onde essa promessa de autonomia será posta à prova.

A autonomia dos bancos centrais proposta pela direita, como se vê nas experiências peruana e brasileira, fundamenta-se no “escudo contra os arroubos populistas do poder político”, embora, na prática, seja um mecanismo que blinda o órgão das políticas propostas pelas autoridades que chegaram ao poder pela vontade popular, deixando-o à mercê dos mercados e dos operadores que o utilizam como instrumento de seus negócios.

Esse truque de dizer uma coisa e, por baixo do pano, fazer outra para disfarçar medidas regressivas foi exposto com indisfarçável cinismo pelo ex-ministro brasileiro Paulo Guedes, que se gabou de ter colocado “uma granada no bolso do inimigo” ao congelar os salários dos funcionários públicos enquanto o governo “abraçava a oposição”.

No caso peruano, essa “granada” tem nome e sobrenome: Julio Velarde, ratificado por Keiko Fujimori para um novo quinquênio à frente do Banco Central de Reserva após 20 anos no cargo, um período que viu desfilar mais de 11 presidentes. Sua gestão, celebrada pelos mercados, tem sido o pilar de um modelo que, com a estabilidade cambial como dogma, facilitou o extrativismo de multinacionais que deixam migalhas, aprofundando a desigualdade social e consolidando um esquema onde o bem-estar de poucos se paga com a perpetuação da pobreza das maiorias.

No caso do Brasil, essa “independência” tem sido uma rémora constante para as aspirações desenvolvimentistas do governo Lula. Durante seu mandato, o Banco Central manteve a taxa básica de juros (Selic) em níveis exorbitantes, superior a 14% ao ano, enquanto a inflação não ultrapassava 4,6%. Isso se traduziu em uma taxa de juros real de mais de 10% (uma das mais altas do mundo), uma transferência de renda sem precedentes do setor produtivo e dos trabalhadores para o sistema financeiro. É que a elevada taxa de juros que o Banco Central estabelece para “frear a inflação” é paga com impostos que são, em última instância, recursos que se privam da produção e do consumo.

Esse fenômeno não se reduz a uma questão de nomes. No Brasil, não se tratou apenas da gestão de Roberto Campos Neto, o presidente do Banco Central “herdado” de Bolsonaro, que só pôde ser renovado após o primeiro trecho do governo Lula. Seu sucessor, Gabriel Galípolo, apesar de ungido com um halo de ideias “progressistas”, não modificou a política de taxas exorbitantes. A razão é estrutural: uma Selic tão elevada transforma os títulos públicos no melhor negócio do mercado, sem risco e com altíssima rentabilidade, alimentando uma “cultura rentista” que desestimula o crédito produtivo e premia a especulação. Nesse quadro, a autonomia formal não passa de um blindaje para que o Banco Central perpetue um modelo que transfere renda do trabalho para o capital financeiro, sem prestar contas ao Congresso nem à cidadania, como se evidenciou na negativa sistemática de reduzir a Selic apesar da desaceleração inflacionária. Vale lembrar que a inflação no Brasil manteve-se dentro da banda estipulada, e mesmo o governo Lula, fruto de uma política de responsabilidade fiscal, nunca se aproximou do teto máximo permitido.

Assim, enquanto o governo Lula tenta impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento com investimento público e recomposição do salário mínimo, o Banco Central responde com ajustes contracionistas que neutralizam qualquer estímulo, gerando um conflito aberto que evidencia a subordinação da autoridade monetária à lógica financeira. As justas críticas de Lula a essa política esbarram num coro monofônico de meios “especializados” que militam sem disfarce essa transferência de renda, defendendo que o pagamento de juros da dívida pública — financiada com impostos — é uma necessidade técnica, quando na realidade é uma decisão política que empobrece o país.

Por tudo isso, é preciso olhar além da experiência extrema do Peru e, principalmente, desconfiar das vozes que menosprezam o perigo de que se consolide no Senado o que já foi aprovado pelos deputados, sob o argumento pueril de que “depois podemos mudar os Bausilis”. A experiência brasileira demonstra o contrário: não se trata de homens, mas de sistema. Essa é a granada que o neoliberalismo deixará no bolso do próximo governo argentino se a lei não for barrada no Senado.