25/08/2026│Após uma turnê internacional repleta de gestos políticos de utilidade duvidosa, o Presidente recolheu-se por 10 dias na solidão de Olivos. Sua reaparição na Bolsa de Comércio de Rosário foi um delírio de negacionismo econômico. Quando seus próprios ministros tentaram freá-lo na reunião de gabinete de segunda-feira, ele respondeu com desprezo e mais negacionismo. O mágico ficou sem truques, e o público começa a olhar para outro lado.
Por Ramiro Carlos H. Caggiano Blanco

Agosto de 2026 deveria ser o mês da consagração internacional para Javier Milei. Mas a turnê pelo Brasil, Colômbia e Peru acabou se tornando o palco de um festival de gafes com cheiro de fracasso. Os insultos a Lula no Brasil, longe de abrirem caminho para seu protegido Flávio Bolsonaro, acenderam uma crise diplomática que nem o departamento de imprensa mais criativo consegue maquiar. Enquanto isso, o abraço recarregado no colombiano Abelardo de la Espriella — o famoso “Tigre” sem garras — e a participação na posse da sempre polêmica Keiko Fujimori no Peru passaram como anedotas sem peso, gestos vazios que não conseguiram esconder o evidente: o líder libertário se move entre as margens de uma direita que o aplaude por inércia, mas não o segue.
De volta, o silêncio. Dez dias na residência presidencial em Olivos sem uma palavra nem uma foto. Os rumores sobre sua saúde física e mental se multiplicaram apesar do silêncio da mídia oficialista. Quando finalmente saiu de seu recolhimento, não o fez para ouvir seus ministros, mas para dar um show diante dos empresários na Bolsa de Comércio de Rosário.
Na sexta-feira, 21 de agosto, Milei participou do evento pelos 142 anos da Bolsa de Comércio de Rosário, sua terceira visita consecutiva à entidade. O discurso foi, segundo palavras do jornalista Marcelo Longobardi, “um delírio” e “muito desconectado da realidade”. O mandatário voltou a negar a crise de endividamento familiar e culpou a compra de televisores para a Copa do Mundo. “Compraram televisores para ver a Copa e depois viam se pagavam ou não”, disparou, atribuindo a inadimplência ao consumo irresponsável e não à perda do poder aquisitivo que, segundo o Centro de Economia Política Argentina, acumula uma queda de 8,7% desde sua posse. O problema — metodológico, cronológico, lógico — é que a inadimplência ocorre depois da sexta parcela não paga. Mas o mandatário, fiel ao seu estilo, ensaiou seu habitual tom de palhaço de circo para dar peso a uma falácia que se desmorona sozinha.
Mas o golpe de realidade veio na segunda-feira, 24 de agosto, quando Milei liderou uma reunião de gabinete na Casa Rosada. Não era uma reunião qualquer: era seu primeiro contato com a linha de frente de funcionários depois de mais de três semanas. E não encontrou aplausos. Segundo fontes, os ministros — particularmente os provenientes do PRO — exigiram uma mudança de rumo econômico e empatia com os setores mais castigados pela recessão. A resposta de Milei foi desconcertante e desesperada: negou os dados do endividamento recorde (aquela mancha que nem a mídia a soldo consegue esconder), disparou contra seus próprios colaboradores porque, segundo ele, não entendiam “o plano”, classificou como “imbecilidade” as referências a uma economia de “duas velocidades”, ratificou que a linha de gestão é intocável e, consequentemente, rejeitou qualquer alternativa que pudesse ser considerada “populista”.
Como se não bastasse, a prisão de seu ex-assessor Fernando Cerimedo, na Bolívia, atingiu “in pectore” a estrutura digital do governo. Cerimedo foi quem o aproximou dos círculos de poder dos EUA e do todo-poderoso Brad Parscale, assessor digital de Trump de 2016 a 2020, como aponta a jornalista Natalia Volosin. No entanto, o racha interno do governo tornou-se mais cruel do que o cenário externo. Neste mesmo mês, Karina Milei, a Secretária-Geral e verdadeiro poder por trás do trono, demitiu Santiago Caputo, assessor estrela do presidente, de seu posto na área de comunicação digital. Santiago Oría, um “karinista” de raiz, assume agora as rédeas de uma operação digital que, até pouco tempo, garantia o fluxo de “robôs” e “fazendas de bots” que inflavam as métricas do líder libertário.
O resultado é um Presidente cada vez mais solitário. Sem o apoio dos “robôs” que lhe garantiam suas famosas métricas fornecidas pela dupla Cerimedo-Caputo, um com o hardware e o outro com as ideias e contatos com a imprensa e operadores políticos, Milei recorre à sua última ferramenta: o insulto aos jornalistas — a maioria do seu próprio espaço ideológico — que já não conseguem mais ampará-lo em seus delírios anarcocapitalistas. Mas ele já não é o mesmo de antes.
Os números da economia continuam não fechando com os prognósticos da “escola austríaca versão fim do mundo”; a promessa mileinista de “ser a Alemanha” mostra-se como o que sempre foi, uma ilusão sem ancoragem na realidade, enquanto a popularidade despenca para abaixo de 30% segundo as pesquisas mais recentes, e o horizonte da reeleição de 2027 revela-se como um miragem. Questionado por seus ministros, surrado pelo mercado, ameaçado pela oposição que dá sinais de se organizar, e cada vez mais isolado, Milei faz o que sabe fazer de melhor: insultar como um adolescente enfurecido. Mas o truque, de tão repetido, já não surpreende e o público — aquele público que um dia festejou suas tiradas — começa a olhar com preocupação para a geladeira vazia e percebe como ridículo o que antes parecia ousadia.
Porque o problema de Milei não é que os jornalistas o critiquem: é que a realidade está vencendo a partida. O desemprego formal cresce, a inadimplência dispara e os salários não são suficientes. Contra essa realidade, não há truques novos nem cliques suficientes.
