08/08/2026 │ As tensões entre governos, mercados e atores privados redefinem alianças, cadeias de valor e margens de soberania.
Por Ricardo Auer
Fonte: INFOBAE (*)
Durante boa parte da fase hiperglobalizadora, as empresas se preocupavam pouco com os rumos do Estado. Concentravam-se essencialmente nas questões corporativas, como finanças, minimização de custos, ampliação de escala e acesso a mercados internacionais. A geopolítica praticamente não existia em seu vocabulário, e a geografia importava apenas como variável de custo logístico. Tudo isso mudou drasticamente na última década. Comprar hoje um insumo não garante sua disponibilidade no futuro — ou, inversamente, a impossibilidade de substituí-lo. Pode-se adquirir um equipamento para gerar valor e, posteriormente, ter suas peças de reposição bloqueadas por critérios de segurança nacional. Incertezas demais.
Hoje, as empresas são obrigadas a reconhecer que, no mundo atual, existe o risco geopolítico. A mudança contínua de tarifas, a ausência de regras no comércio internacional, as sanções recíprocas por motivos alheios à racionalidade econômica, regulações de toda ordem, restrições de capital, oscilações constantes no preço da energia e suas correlações com os preços das commodities, cadeias de suprimentos instáveis, ações ideológicas de funcionários públicos, entre outros fatores, são algumas das incertezas decorrentes do uso discricionário dos instrumentos de poder exercido pelas principais potências mundiais. Os conflitos se propagam para os mercados, a tecnologia, as finanças, os investimentos, as cadeias de valor, a infraestrutura e a logística global. O Fórum Econômico Mundial assim o reconhece, apontando que o confronto geopolítico é o principal risco global para 2026, com um horizonte de pelo menos mais cinco anos.
Os Estados utilizam instrumentos comerciais, financeiros, tecnológicos e regulatórios para obter resultados estratégicos. Nos últimos anos, as mudanças de taxas e tarifas aduaneiras têm sido o principal fator de incerteza no curto prazo. As tarifas costumam proteger setores industriais, o que pode modificar determinadas cadeias de abastecimento; os subsídios atraem indústrias e investimentos, redefinem localizações e geram preços de dumping em algumas exportações; as sanções segmentam mercados; os controles de exportação alteram fornecedores e deslocam a fronteira tecnológica; as regras sobre investimento estrangeiro introduzem prioridades geopolíticas, favorecendo ou penalizando empreendimentos.
A competição tecnológica é um fator que gera instabilidade no médio e longo prazo, particularmente no campo da Inteligência Artificial, porque envolve grandes investimentos, fornecimento de recursos estratégicos e fontes de energia, o que interliga tudo: política industrial, segurança nacional, infraestrutura e comércio internacional. A rivalidade entre EUA e China determina controles sobre chips, softwares, dados e propriedade intelectual, redirecionando investimentos e dividindo arquiteturas tecnológicas.
Todas essas alterações não significam uma ruptura completa do comércio. Na realidade, o volume comercial mundial continua elevado, mas sua complexidade aumenta consideravelmente, o que favorece a concentração empresarial, já que as empresas de menor ou médio porte podem não saber como aproveitar as brechas favoráveis, ou chegar tarde demais para realizar as mudanças necessárias, por não disporem de um farol geopolítico que as oriente em meio a tanta incerteza global.
A geopolítica deixou de ser uma variável marginal e passou ao centro do cenário corporativo, porque incide crescentemente sobre o risco empresarial, a arquitetura do comércio global, o desenvolvimento tecnológico e a alocação internacional de capital — o que modifica o custo do capital, as margens de lucro ou o valor das ações, e obriga as empresas a analisar suas respectivas opções estratégicas em seus futuros planos de negócios.
A geometria da globalização se deslocou do eixo financeiro para o geopolítico. Os fluxos produtivos e comerciais se mantêm, mas se reorganizam em torno de afinidades políticas, países terceiros e novas plataformas produtivas. As cadeias globais de valor se relocam, após uma análise extremamente complexa. A dependência de fontes “amigas”, porém excessivamente concentradas, também representa um risco de abastecimento no longo prazo. Relocalizações excessivamente diversificadas enfrentam problemas de economia de escala e custos, de especialização e de curva de aprendizado. As autarquias tampouco são solução para a maioria dos casos. As opções são sempre críticas, de implementação não imediata e exigem vigilância permanente.
Segundo a OCDE, cerca de 30% das exportações mundiais estão altamente concentradas em poucos atores, e estima-se que uma relocalização ampla poderia reduzir o comércio mundial em 20% e o PIB real global em 5%, embora provavelmente não melhorasse significativamente a estabilidade; ou seja, na maioria das economias, a volatilidade geral persistiria.
O interesse empresarial argentino por temas políticos estratégicos ou pela geopolítica é bastante limitado e se restringe ao acompanhamento de guerras distantes. Há poucos estudos prospectivos que aprofundem diversas opções que poderiam oferecer ideias voltadas a uma maior potencialização da Argentina, o que beneficiaria toda a comunidade, com maior quantidade e qualidade de empregos. Cada empresa não pode antecipar cada acontecimento internacional, mas deveria ser capaz de reconhecer os fatores que poderiam alterar sua trajetória econômica, construir cenários possíveis e estabelecer respostas alternativas.
A Argentina possui ativos estratégicos importantes, mas carece de um plano estratégico. Como a expansão da IA amplia a demanda por energia, infraestrutura e materiais, abrem-se oportunidades para países capazes de negociar favoravelmente seus recursos competitivos. Aqueles que tiverem projetos nacionais maduros e certa autonomia estratégica certamente terão maiores possibilidades de êxito para favorecer seu desenvolvimento nacional. Somos fortes fornecedores de energia, petróleo e gás, cobre, lítio, infraestrutura, agronegócio e serviços baseados em conhecimento, cuja demanda global depende cada vez mais de decisões estatais externas e da segurança de abastecimento.
Porém, a Argentina participa principalmente como fornecedora de recursos e insumos primários, e não como um nó integrado de manufatura e serviços complexos nas cadeias de valor globais. Isso fica evidente no caso dos minerais críticos. Mais de 60% das exportações de lítio são produtos não processados ou com refino básico. O desenvolvimento nacional não se mede pela quantidade de capital que se consegue atrair, mas pela posição que o país ocupará dentro das cadeias: exportar gás, lítio, cobre ou alimentos gera divisas, mas desenvolver engenharia, fornecedores, infraestrutura, tecnologia e serviços associados multiplica o impacto sobre a produtividade.
Para chegar a esse ponto, precisamos de um plano estratégico que ordene o território e a economia nacional, e que transmita seriedade e segurança no cumprimento do que for pactuado. A função do Estado (não ideológico nem burocrático) é, nos tempos atuais, mais importante do que em períodos anteriores. Em vez de simplesmente entregar nossas riquezas, deveríamos “licitar” quais investidores nos trariam o maior benefício nacional — por exemplo, em fornecedores nacionais, na capacitação de pessoal argentino em novas tecnologias, na instalação de fábricas ou centros onde se agregue valor ao que é extraído, em redes de infraestrutura, ferrovias, rodovias e satélites.
Tampouco devemos permitir que os contratos sejam resolvidos em tribunais estrangeiros (Nova York ou Londres), que colocam os investidores estrangeiros acima das empresas argentinas e onde sempre saímos perdendo. Isso exige um Poder Judiciário argentino mais sério. Essas licitações de investimento deveriam prever lucros razoáveis para ambas as partes, distantes das isenções desproporcionais atualmente oferecidas no RIGI ou no super RIGI. Isso só pode ser alcançado quando a estabilidade política se tornar a norma — o que somente será possível por meio de um grande debate político nacional.
A geopolítica é um tema central no mundo, e os Estados nacionais são os que conduzem esses processos. É inconcebível sustentar a política atual, que produz a degradação das principais fortalezas do Estado Nacional. Deve-se evitar a continuidade da atual ação destrutiva interna ou da atuação de lobbies estrangeiros que pretendem privatizar as decisões soberanas do Estado argentino. Além disso, a adesão incondicional a outros Estados é incompatível com as necessidades de construção de uma política internacional que vise a uma maior autonomia estratégica, como aspiram todos os países do mundo.
No cenário global atual, Estados nacionais fortes, não burocráticos, com clareza estratégica e capacidade de sustentar políticas soberanas, são a chave para manobrar e sobreviver nas águas turbulentas da desordem mundial. Isso se conquista quando nos sentamos à mesa das negociações — e não quando somos um dos pratos servidos nela.
(*) Publicado com autorização do autor.*
