08/08/2026 │ Na madrugada de quinta-feira, o Senado argentino desferiu um duro golpe no governo libertário de Milei: não aprovou a parte central do projeto de lei de “Inviolabilidade da Propriedade Privada”, eufemismo com o qual pretendia remover o limite à quantidade de terras que estrangeiros podem adquirir na Argentina.

Apesar da tempestade que atingiu a Região Metropolitana de Buenos Aires (AMBA) durante todo o dia, houve grande comparecimento na Praça dos Dois Congressos. Os principais slogans foram “A Terra Não Se Vende, Se Defende” e “As Malvinas são Argentinas”, seguindo a linha que impactou o mundo todo quando a Seleção Argentina de Futebol comemorou sua vitória contra a Inglaterra com uma bandeira com essa legenda.
Enquanto o Senado estava em sessão, nas ruas, a Polícia Federal, a Gendarmaria Nacional, a Prefeitura Nacional e a Polícia de Segurança Aeroportuária reprimiram com balas de borracha, gás e caminhões hidrantes, por várias horas, aqueles que marcharam para protestar contra o tratamento no Senado do projeto de Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada, impulsionado pelo governo nacional.
Despejos relâmpago
Permanecem vigentes na iniciativa outros aspectos questionados por diferentes setores da oposição. Entre eles, aparecem as modificações na Lei de Manejo do Fogo, para a qual o governo propõe eliminar a maioria das restrições: por exemplo, manteve-se do projeto original a revogação que flexibiliza a venda e o manejo de terras rurais, pastagens e zonas agrícolas após incêndios.
Há também resistência à lei por parte de organizações de inquilinos, que questionam os despejos relâmpago que a Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada habilitaria.
O presidente da Federação Nacional de Inquilinos, Gervasio Muñoz, afirmou que “o que essa lei faz é retirar garantias para que os inquilinos possam se defender em um processo de despejo”.
“O dono do imóvel, simplesmente indo à Justiça e dizendo ‘essa pessoa nunca me pagou, não tem contrato, é um invasor’. Só com essa declaração, o juiz, sem que a família possa se defender, em 72 horas tem que ordenar o despejo”, acrescentou Muñoz.
Kicillof: “Milei se subordina aos EUA e a Israel”
O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, também compareceu à Praça do Congresso, onde ocorreu a mobilização, e afirmou que “se alcançou algo central: que o governo nacional descarte a loucura e a insensatez do capítulo da lei sobre a venda de terras rurais a capitais estrangeiros”.
Kicillof acrescentou que “os outros capítulos dessa lei também são nefastos. Por isso é importante que, neste momento em que o governo achava que ia passar por cima de tudo pela enésima vez, haja uma reação transversal junto a muitos setores que já perceberam qual é o projeto de fundo”.
O governador bonaerense sustentou que “Milei subordinou nossa política externa à dos Estados Unidos e de Israel. É por isso que agora está brigando com o Brasil, nosso principal parceiro comercial”.
A deputada nacional Victoria Tolosa Paz afirmou que a iniciativa representa uma nova cessão de soberania e destacou que a pressão popular já conseguiu frear aspectos centrais da proposta do oficialismo.
A legisladora apontou que o projeto impulsionado pelo oficialismo sob o nome de “Inviolabilidade da Propriedade Privada” visa habilitar uma maior entrega do território argentino.
