31/05/2026│A desarticulação da simbiose econômica entre EUA e China não é um simples choque de potências, mas o resultado de elites fragmentadas que priorizam privilégios de curto prazo em detrimento da estabilidade global. Com a geopolítica sobrepondo-se ao livre-comércio, o mundo caminha para uma multipolaridade armada, fragmentada e intrinsecamente instável.
Por: Lic. Alejandro Marcó del Pont
FONTE: El tábano economista
Os passageiros de primeira classe estão saqueando o navio enquanto ele afunda

A ordem internacional contemporânea atravessa uma fase de reconfiguração estrutural que desafia as leituras lineares da transição hegemônica. Não assistimos simplesmente a um choque clássico entre uma potência estabelecida e uma emergente, concebido sob o prisma tradicional do neorrealismo. O que define a presente conjuntura é a desarticulação deliberada da simbiose econômica mais profunda da história moderna, impulsionada por transformações de fundo na composição, nos interesses e na percepção de risco das elites de poder dentro dos Estados Unidos e da República Popular da China.
Para compreender a velocidade e a natureza dessa ruptura, a ciência política clássica resulta insuficiente. É imperativo cruzar a geopolítica das grandes potências com a macroeconomia global e, fundamentalmente, com uma sociologia crítica das elites. Como argumentou Richard Lachmann em sua obra póstuma “Passageiros de primeira classe em um navio que afunda” (2020), a paralisia estratégica e o declínio das potências imperiais frequentemente não provêm de ameaças externas insolúveis, mas da incapacidade de suas elites fragmentadas de sacrificar privilégios de curto prazo em prol da preservação do sistema como um todo.
Ou seja, o autor expõe que o declínio imperial ocorre quando as elites se tornam tão corporativas e autorreferenciais que priorizam defender seus privilégios e rendimentos setoriais específicos antes de investir na preservação do sistema que as sustenta. No caso dos EUA, a elite de poder estadunidense (o complexo de segurança nacional, Wall Street e o capital tecnológico de defesa) prefere balcanizar a economia global para manter sua primazia, em vez de permitir uma governança multipolar compartilhada.
No contexto estadunidense, a “elite de poder” descrita originalmente por C. Wright Mills —essa amálgama entrelaçada de comandos militares, líderes políticos e magnatas corporativos— viu fracturado seu consenso da era da globalização. A ala financeira de Wall Street e o bloco tecnológico do Vale do Silício, que durante décadas operaram como os arquitetos da interdependência com Pequim, hoje se veem subordinados a um novo consenso bipartidário em Washington, dominado pelo aparato de segurança nacional.
Se desfrutássemos de um olhar à la Arrighi e Wallerstein, haveria uma bifurcação sistêmica: a economia-mundo capitalista estaria esgotando a fase de expansão financeira da hegemonia estadunidense. Seguindo Arrighi (Caos e governabilidade no sistema-mundo), quando a potência hegemônica recorre à militarização das finanças (sanções, exclusão do SWIFT), acelera a criação de estruturas alternativas por parte das elites não ocidentais, precipitando a fragmentação do mercado mundial unificado.
Pelo contrário, em Pequim, o Politburo do Partido Comunista da China (PCCh) consolidou um modelo de primazia da segurança estatal sobre a maximização do crescimento econômico abstrato. Sob a premissa da “segurança total”, as elites estatais e as empresas públicas (SOE, na sigla em inglês) disciplinaram os barões tecnológicos do setor privado, reorientando o capital nacional desde o arbitragem financeira e as plataformas de consumo digital para a manufatura avançada, a soberania da cadeia de suprimentos e o que Giovanni Arrighi identificou como a transição para um modelo de desenvolvimento não despossuidor.
Este primeiro artigo examinará como a colisão entre essas duas arquiteturas de elite está fragmentando a economia internacional. Através da lógica do de-risking (redução de riscos), do nacionalismo tecnológico, da militarização das finanças e da disputa pelos gargalos da infraestrutura global, as dinâmicas internas das elites estão arrastando o sistema de economia-mundo —no sentido cunhado por Immanuel Wallerstein— para uma multipolaridade fragmentada e intrinsecamente instável.
A arquitetura global das últimas quatro décadas foi cimentada sobre um pacto implícito entre as elites ocidentais e o funcionalismo reformista de Pequim após a abertura econômica iniciada por Deng Xiaoping. Como analisou Giovanni Arrighi em Adam Smith em Pequim (2007), esse processo não supôs uma mera capitulação da China ante o capitalismo neoliberal, mas uma convergência de conveniências. Para a elite corporativa e financeira dos Estados Unidos, a incorporação da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 representou uma bonança sem precedentes: uma massiva deflação dos custos laborais, a otimização dos retornos de capital mediante a deslocalização (offshoring) e o acesso a um mercado doméstico em expansão exponencial. Wall Street atuou como o principal fiador de Pequim em Washington, assegurando que as tensões políticas sobre Taiwan ficassem subordinadas ao fluxo livre de mercadorias e capitais.
Por sua vez, a elite do Partido Comunista da China (PCCh) utilizou esse fluxo massivo de investimento estrangeiro direto para industrializar o país, absorver transferências tecnológicas e tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza, legitimando seu monopólio do poder político por meio de um desempenho econômico sem paralelo. Durante esse período, as reservas de divisas chinesas foram recicladas massivamente na compra de títulos do Tesouro dos EUA, criando um ciclo macroeconômico fechado: a China produzia, os Estados Unidos consumiam a crédito, enquanto Pequim financiava a dívida estadunidense.
A chegada de Xi Jinping ao poder em 2012 marcou um ponto de inflexão decisivo na autopercepção da elite chinesa. A crise financeira global de 2008 já havia sido interpretada em Pequim como o sintoma inequívoco do declínio terminal da hegemonia financeira ocidental, uma leitura alinhada com as teses de Ray Dalio sobre o ciclo de grandes dívidas e a mudança de ordem mundial. A elite chinesa determinou que a dependência do consumo estadunidense e das tecnologias ocidentais-chave (como semicondutores e software de infraestrutura) expunha o país a um estrangulamento estratégico. Em consequência, foram lançadas iniciativas estruturais como o Made in China 2025 e, posteriormente, a estratégia de “Dupla Circulação” ou Xiconomics, projetada para blindar o mercado interno e alcançar a autossuficiência tecnológica, ao mesmo tempo em que projetava o poder infraestrutural por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI).
O consenso das elites que sustentava a ordem globalizada se rompeu. Em Washington, a guinada para o confronto iniciada sob a administração Trump não foi uma aberração transitória, mas a manifestação de uma mudança tectônica na elite de poder. Conforme reportou uma análise exaustiva da Foreign Affairs em 2024, o establishment democrata e o republicano convergiram para uma doutrina comum: o engajamento econômico com a China não havia transformado seu sistema político rumo ao liberalismo; ao contrário, havia financiado o surgimento de um competidor comunista de alta tecnologia, capaz de disputar a hegemonia estadunidense no Indo-Pacífico e o controle dos padrões globais.
No cenário contemporâneo (2024-2026), a competição estratégica já não se decide primordialmente no terreno do livre-comércio, mas no controle das tecnologias de uso dual (civil e militar) e na resiliência das cadeias de valor. A economia internacional se tornou um vetor da geopolítica, um fenômeno que o Peterson Institute for International Economics (PIIE) catalogou como a era da “segurança econômica onipresente”.
O campo de batalha central dessa disputa é o ecossistema dos semicondutores avançados, da inteligência artificial (IA) e da computação quântica. As restrições à exportação impostas pelo Escritório de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio dos EUA, iniciadas de forma sistêmica em outubro de 2022 e endurecidas sucessivamente de maneira drástica, representam uma tentativa explícita de estrangulamento tecnológico. A doutrina do “pequeno quintal e cerca alta” (small yard, high fence), formulada pelo assessor de segurança nacional Jake Sullivan, busca asfixiar a capacidade da China de desenvolver chips de ponta abaixo dos 14 nanômetros, limitando seu acesso aos sistemas de litografia ultravioleta extrema (EUV) produzidos pela empresa holandesa ASML e às unidades de processamento gráfico (GPU) de empresas estadunidenses.
Um relatório do Center for Strategic and International Studies (CSIS) detalha como essa política forçou uma reestruturação das cadeias globais. A resposta de Pequim não foi a capitulação, mas uma mobilização massiva de recursos estatais por meio dos “Grandes Fundos” de circuitos integrados, forçando as elites corporativas locais a substituir todos os componentes estrangeiros. Empresas como Huawei e Semiconductor Manufacturing International Corporation (SMIC) lograram avanços significativos na produção de chips baseados em arquiteturas alternativas e processos de litografia madura otimizados, o que demonstra os limites das sanções unilaterais frente a um Estado com uma base de engenheiros de escala continental.
Paralelamente, a disputa se trasladou ao setor da transição energética, onde a China ostenta um quase monopólio de facto. Conforme dados da Agência Internacional de Energia (AIE) analisados pelo Financial Times, Pequim controla mais de 70% da capacidade de refino de minerais críticos como lítio, cobalto e terras raras, e produz mais de 80% dos módulos solares e baterias para veículos elétricos em nível mundial. A elite automotiva e tecnológica europeia e estadunidense se encontra presa em uma contradição insolúvel: cumprir com as metas de descarbonização exige a integração da tecnologia chinesa, mas a diretriz geopolítica ordena a redução de riscos — de-risking.
Essa paradoxo econômico gera uma intensa fricção no âmbito geofinanceiro. A exclusão da Rússia do sistema SWIFT após a invasão da Ucrânia acelerou um processo descrito como a diversificação do risco sistêmico do dólar. A elite financeira chinesa, em coordenação com seus pares do bloco BRICS+, expandiu o uso do CIPS (Sistema de Pagamento Interbancário da China) e a internacionalização do yuan por meio de contratos de commodities denominados na moeda chinesa (o “petroyuan”).
Hoje, o nexo do poder se localiza no aparato burocrático de segurança nacional (Pentágono, agências de inteligência, Conselho de Segurança Nacional) em estreita aliança com facções do Congresso. Essa coalizão redefiniu o interesse nacional em termos de primazia militar e tecnológica. O Vale do Silício, que inicialmente mantinha uma postura ambivalente e globalista, alinhou-se progressivamente a Washington à medida que a computação de fronteira e a IA se tornaram prioridades de defesa. O ascenso de fundos de capital de risco focados em “tecnologia de defesa” (defense tech) e o protagonismo de figuras que conectam o desenvolvimento tecnológico com a segurança estatal demonstram essa fusão.
Na República Popular da China, a estrutura de elite está estritamente hierarquizada sob o controle da direção central do PCCh. A guinada política da última década consolidou o poder dos tecnocratas da segurança acima dos quadros puramente orientados ao crescimento do PIB que dominaram as eras de Jiang Zemin e Hu Jintao.
Essa mutação interna se manifestou com clareza na campanha de regulação e disciplina dos grandes barões do setor tecnológico privado (Alibaba, Tencent, Ant Group, Didi) iniciada em 2020. A direção do Partido considerou que a acumulação descontrolada de capital, o controle monopolístico de dados sociais por parte de entidades privadas e as veleidades financeiras de seus fundadores ameaçavam a estabilidade do regime e desviavam recursos dos setores verdadeiramente estratégicos. O PCCh impôs multas bilionárias, forçou reestruturações corporativas e integrou comitês do Partido diretamente na governança dessas empresas.
A elite econômica legítima na China atual é aquela alinhada com os objetivos do Estado. As empresas de propriedade estatal (SOE) que controlam a infraestrutura pesada, a energia e o sistema bancário, junto com uma nova geração de empresários privados dedicados às “tecnologias de gargalo” (hard tech): semicondutores, robótica industrial, biotecnologia avançada e novos materiais. A riqueza pessoal já não garante impunidade nem influência política; o capital deve subordinar-se ao imperativo histórico da resiliência nacional frente ao que Pequim percebe como um cerco estratégico integral por parte do Ocidente.
A colisão entre essas estruturas de elite projeta riscos sistêmicos sobre a estabilidade geopolítica e macroeconômica global, manifestando-se com especial gravidade em três áreas críticas.
A imposição de barreiras tecnológicas está criando uma bifurcação da arquitetura digital global, um fenômeno conhecido como “esplinternet”. Países da América Latina, África e Sudeste Asiático veem-se submetidos a uma pressão diplomática e econômica crescente para escolher entre a infraestrutura tecnológica estadunidense (baseada em software ocidental, nuvens de dados hiperescaláveis — como a capacidade de um sistema tecnológico ou arquitetura em nuvem de crescer de maneira massiva e ágil em resposta a aumentos repentinos de demanda —, bem como redes aliadas) ou a infraestrutura chinesa (redes 5G/6G da Huawei, sistemas de vigilância urbana, nuvens estatais e cabos submarinos financiados por Pequim). Essa fragmentação não apenas duplica de forma ineficiente os custos de capital para as economias em desenvolvimento, mas também reduz a interoperabilidade global, desacelerando o ritmo da inovação científica compartilhada e criando ecossistemas de informação fechados que exacerbam a polarização geopolítica.
A concentração geográfica das cadeias de suprimentos críticas significa que qualquer alteração nos “pontos de estrangulamento” (chokepoints) pode desencadear ondas de choque inflacionárias e paralisia industrial em nível planetário, como o que deu origem à “guerra dos corredores“. O Estreito de Taiwan, por onde transita uma porcentagem altíssima da frota de contêineres do mundo e praticamente a totalidade dos chips de lógica avançada produzidos pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), constitui o epicentro do risco geopolítico.
Um relatório da RAND Corporation adverte que mesmo um bloqueio de baixa intensidade ou uma quarentena aduaneira imposta por Pequim sobre a ilha custaria trilhões de dólares à economia mundial em questão de semanas. Da mesma forma, a projeção do poder naval chinês no Mar da China Meridional e no Estreito de Malaca colide diretamente com a doutrina de liberdade de navegação defendida pelo Comando do Indo-Pacífico dos EUA, mantendo a região em um estado de alerta militar permanente.
O modelo econômico da China, impulsionado por suas elites estatais, repousa sobre altas taxas de investimento em manufatura avançada combinadas com um consumo doméstico relativamente deprimido. Ao não absorver toda a produção internamente, o excedente industrial se projeta para os mercados globais na forma de exportações competitivas de veículos elétricos, baterias e painéis solares. As elites políticas ocidentais, temerosas de uma segunda “onda de desindustrialização” que varra suas indústrias autóctones e desestabilize seus sistemas eleitorais, responderam com a imposição de tarifas massivas e quotas protecionistas. Essa dinâmica ameaça desmantelar definitivamente o arcabouço institucional da OMC, mergulhando o comércio internacional em um regime de retaliações mútuas, reminiscente da década de 1930.
A análise da competição entre China e Estados Unidos por meio da confluência da geopolítica, da macroeconomia e da sociologia das elites revela um panorama sombrio, mas extremamente esclarecedor. A globalização, longe de ser um processo natural irreversível, foi um projeto político-econômico contingente, projetado e sustentado por coalizões de elites específicas que hoje retiraram seu apoio.
O sistema de economia-mundo analisado por Wallerstein está experimentando uma transição estrutural onde a eficiência econômica pura foi deslocada pelo imperativo da sobrevivência e da autonomia política. O alerta de Richard Lachmann adquire uma relevância profética. As elites das grandes potências, concentradas na preservação de seu controle interno e na neutralização de seus rivais diretos, estão dilacerando os bens públicos globais — a estabilidade financeira, a cooperação climática, a governança tecnológica comum e a prevenção de conflitos em larga escala — que garantem a viabilidade da própria ordem internacional.
Não nos dirigimos a um colapso automático do sistema, mas para uma era de multipolaridade armada e fragmentada, caracterizada pelo que os analistas denominam “paz armada dissuasória”. Nesse entorno, a estabilidade global dependerá da capacidade das elites de poder em Washington e Pequim de estabelecerem mecanismos mínimos de gestão de crises. Contudo, na medida em que as dinâmicas políticas internas de ambas as superpotências continuarem premiando o nacionalismo defensivo e penalizando o compromisso diplomático, os “passageiros de primeira classe” continuarão disputando o leme de uma ordem global que ameaça fragmentar-se sob seus pés.
