11/05/2026│O CIN, a Frente Sindical e a FUA convocam nesta terça-feira mobilizações em todo o país, com epicentro na Plaza de Mayo, para exigir que o governo libertário cumpra uma lei aprovada no Congresso e ratificada pela Justiça. As transferências caíram 45,6% e os salários dos professores acumularam uma perda de mais de 30% desde dezembro de 2023.
FONTE: Política argentina

Será a quarta vez em pouco mais de dois anos. Nesta terça-feira, 12 de maio, será realizada a quarta marcha federal para exigir a implementação da Lei de Financiamento Universitário. Há chamadas por todo o país e, na Cidade de Buenos Aires, o evento central acontecerá na Plaza de Mayo às 17h. As mobilizações anteriores ocorreram em 23 de abril de 2024, 2 de outubro de 2024 e 17 de setembro de 2025. Em nenhum destes casos o governo nacional modificou a sua posição.
Quem convoca
A mobilização foi confirmada numa conferência de imprensa chefiada pelo presidente do CIN e reitor da Universidade Nacional de Rosário, Franco Bartolacci, juntamente com sindicatos docentes e não docentes, estudantes e autoridades de diferentes casas de estudo do país.
Seis grupos participaram em nome do setor sindical: a Federação de Professores Universitários, a Confederação dos Trabalhadores da Educação da República Argentina (Ctera), a Conadu e a Federação Argentina de Trabalhadores das Universidades Nacionais, entre outros. Também esteve presente a Federação Universitária Argentina (FUA), que reúne estudantes de nível nacional.
O que eles afirmam: a lei que não é aplicada
A reivindicação tem um eixo claro e um percurso institucional que já esgotou quase todas as instâncias disponíveis. A Lei de Financiamento Universitário estabelece uma atualização devido à inflação do orçamento universitário, aos salários de professores e não professores e às bolsas de estudo dos alunos.
Foi aprovado pelo Congresso em outubro de 2025 com maioria agravada, após o Poder Executivo vetá-lo integralmente. O Parlamento rejeitou esse veto.
Entretanto, a lei nunca foi aplicada. Depois que o veto presidencial foi revertido pelo Congresso, em outubro, o Poder Executivo suspendeu a aplicação da regra por decreto. Em dezembro, ele tentou revogá-lo por meio de um artigo no Orçamento de 2026, mas não obteve votos suficientes. No final de fevereiro, o partido no poder anunciou um projeto alternativo que não revoga a lei aprovada, mas modifica vários de seus pontos centrais com o objetivo de preservar o equilíbrio fiscal. A iniciativa é rejeitada pelas universidades e ainda não avançou no Congresso.
A lacuna entre o que a lei prevê e o que o governo oferece é concreta: enquanto o projeto atual implica um aumento de 51% para professores e não professores recuperarem o que foi perdido desde dezembro de 2023, a iniciativa oficial oferece 12,3% em três parcelas em março, julho e setembro.
A frente judicial
As universidades também recorreram à Justiça e obtiveram decisões favoráveis. A validade da lei foi ratificada no final de março pela Câmara III da Câmara Federal de Contencioso Administrativo. Após uma primeira decisão favorável em dezembro, no mês passado a Justiça exigiu mais uma vez que o governo cumprisse imediatamente os artigos 5.º e 6.º dessa lei, que se referem à recomposição de salários e bolsas de estudo. Em resposta, em 17 de abril, a Procuradoria do Tesouro Nacional apresentou um apelo extraordinário para suspender ambos os artigos.
Nessa mesma quinta-feira, 7 de maio, soube-se que a Câmara III da Câmara Federal de Contencioso Administrativo deferiu o recurso extraordinário apresentado pelo Governo para levar o conflito ao Supremo Tribunal Federal. As universidades esclareceram que a decisão não diz que a lei cai ou reverte a atual medida cautelar, mas apenas permite a intervenção da mais alta instância judicial.
Bartolacci descreveu a jornada institucional anterior à marcha: negociações com autoridades nacionais, apresentações perante o Congresso em dois períodos legislativos consecutivos e ações judiciais. “Deve haver poucas leis com tanta legitimidade na história institucional argentina”, disse o reitor.
Os números de deterioração
Os dados apresentados pelas próprias universidades definem a magnitude do problema. As transferências de fundos para universidades públicas caíram 45,6% desde 2023, segundo o CIN. Os sindicatos docentes e não docentes alertam que a perda salarial ronda os 40% nestes dois anos.
De dezembro de 2023 a março de 2026, a inflação subiu 293%, enquanto no mesmo período os salários universitários aumentaram apenas 160%. A consequência é concreta: somente na Faculdade de Ciências Exatas da UBA, de dezembro de 2023 até hoje, foram perdidos 438 cargos docentes, trabalhadores que decidiram se demitir por baixos salários.
O impacto também se estende aos hospitais universitários. Um diretor do Hospital de Clínicas alertou que, se a situação não for resolvida em seis semanas, a paralisia será total: “Se dentro de um mês e meio não tivermos todos os recursos necessários, o que começará a acontecer é que o número de cirurgias já foi reduzido em alguns hospitais. No nosso, que trata pacientes com câncer, não podemos dizer a um paciente que não vamos tratá-lo.
O contexto político
No início da semana de greve universitária nacional, o Ministério do Capital Humano, liderado por Sandra Pettovello, ordenou aos reitores das universidades nacionais que comunicassem as medidas que tomaram para garantir o direito à educação dos estudantes.
Da Associação Sindical de Professores da UBA, sua secretária-geral, Laura Carboni, respondeu: “Eles não têm rosto; O governo não tem cumprido uma lei votada cinco vezes no Congresso e ratificada duas vezes em tribunal há 189 dias”.
A secretária-geral da Conadu, Clara Chevalier, sustentou que os salários são os mais baixos em 40 anos e afirmou que há uma crueldade especial por parte do governo para com as universidades. A mobilização de terça-feira será a resposta de rua a uma disputa que já atravessou o Congresso, a Justiça e a negociação direta, sem resultado até agora.
