22/04/2026 | Por trás da visita de Peter Thiel à Argentina se esconde um plano coordenado de desmonte do Estado e captura institucional pelas big techs.
Por Ramiro Caggiano Blanco

O Visitante Incômodo
Peter Thiel, bilionário cofundador do PayPal e da gigante de vigilância Palantir, aterrissou na Argentina em abril de 2026. Não veio a passeio. Alugou uma mansão no exclusivo bairro de Barrio Parque, em Buenos Aires, desloca-se em jato particular com matrícula bloqueada e mantém uma agenda de alto nível envolta em hermetismo.
Já se reuniu com Santiago Caputo, o assessor de confiança do presidente Javier Milei com influência direta sobre a agência de inteligência argentina (SIDE). Nesta quinta-feira (24 de abril), encontrará-se formalmente com Milei na Casa Rosada.
Não é a primeira vez. Em maio de 2024, Thiel já havia se reunido com o presidente libertário e saiu “impressionado” com suas ideias.
O que ele busca? Não é “talento local”. É o subsolo argentino: lítio, cobre, Vaca Muerta. E algo mais inquietante: a Patagônia é vista por Thiel como um potencial “refúgio atômico” para a elite do Vale do Silício diante de um colapso do hemisfério norte. Ele já fez o mesmo na Nova Zelândia.
Palantir: O Software que Quer Governar o Mundo
Para entender Thiel, é preciso entender a Palantir. Fundada em 2003 com financiamento inicial dos serviços de inteligência dos EUA (In-Q-Tel, o braço de investimentos da CIA), a empresa processa dados massivos para a CIA, o FBI e o Pentágono. Seu lema é explícito: “A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá”.
O modelo de negócios da Palantir é conhecido como “land and expand” (entrar e expandir):
- Oferece uma “prova de conceito” gratuita ou a preço simbólico para governos.
- Uma vez instalado, seu software integra dezenas de bases de dados governamentais que antes operavam separadamente. O Estado se torna dependente.
- Com um ministério cativo, expande-se para outras agências.
- Contrata ex-altos funcionários dos governos-alvo. No Reino Unido, um ex-funcionário do Ministério da Defesa foi trabalhar na Palantir e, nove dias depois, seu antigo ministério lhe adjudicou um contrato de 240 milhões de libras sem licitação.
É o que analistas chamam de tecnofeudalismo: o Estado se torna dependente da infraestrutura de uma grande empresa de tecnologia, que passa a ter mais poder que os próprios governos.
O Decreto que Prepara o Terreno
Em 2 de janeiro de 2026, o governo Milei publicou o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 941/2025, que reforma integralmente a Lei de Inteligência Nacional e cria a Comunidade Informativa Nacional (CIN).
A oposição já apresentou amparos na Justiça, argumentando que Milei legislou sobre inteligência sem passar pelo Congresso e que não havia “situação real de urgência”.
O que o DNU faz, na prática? Centraliza os dados de:
- SIDE (inteligência)
- Chancelaria
- Ministérios da Justiça e Segurança
- Renaper (identidade de todos os argentinos)
- Direção Nacional de Migrações
- Aduana e ARCA (ex-AFIP) (alfândega e impostos)
- CONAE (atividades espaciais)
- Autoridade Regulatória Nuclear
- CNEA (Comissão Nacional de Energia Atômica)
- Renar (registro de armas)
O software da Palantir precisa integrar fontes dispares de informação para gerar perfis, previsões e alertas. Quanto mais dados, mais “inteligente” é o sistema. O DNU dá à Palantir um único ponto de acesso à base de dados mais completa do Estado argentino.
Nas palavras de um deputado libertário: “Se a Palantir vier, todo o resto não importa porque muda a forma de nos governarmos”.
A Tentativa de Patricia Bullrich (Frenada por Karina Milei)
Quando Patricia Bullrich era ministra da Segurança, preparou um “contrato extralarge” com a Palantir para que a empresa ingressasse no país através de uma nova Agência de Segurança Migratória, com Diego Valenzuela como operador.
Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, abortou a operação. Segundo fontes do Senado, “Bullrich e seu marido só pensaram neles mesmos”. A irmã do presidente queria o controle do negócio.
O episódio revela algo crucial: a discussão nunca foi sobre se a Palantir deveria entrar, mas sobre quem controlaria o negócio.
A Guerra nos Bastidores: Karina vs. Caputo
Santiago Caputo está enfrentado com Karina Milei. A crise já é pública e profunda.
Caputo tem contatos diretos com os Estados Unidos. Foi mencionado explicitamente por Peter Lamelas, o embaixador designado por Trump para a Argentina, em sua audiência de confirmação no Senado dos EUA (julho de 2025), como interlocutor prioritário. Lamelas disse que seu plano era “apoiar Milei para que ganhe as eleições legislativas” e “assegurar que Cristina Fernández continue presa”.
A reunião Thiel-Caputo é a continuação lógica dessa conexão. Caputo é a ponte natural entre o governo argentino e os interesses tecnológicos e de inteligência de Washington.
Se Caputo conseguir que a Palantir se instale na SIDE, terá acesso a informações privilegiadas sobre todos os atores políticos argentinos. Isso, em uma campanha eleitoral, é um poder imenso. E se Thiel aportar não apenas o software, mas também financiamento e respaldo internacional, Caputo poderia construir uma candidatura própria (ou de um fantoche) sem depender de Karina.
Não é conspiração. É política de poder com ferramentas do século XXI.
A Reforma Nuclear: O Coração da Entrega de Soberania
A inclusão da CNEA na CIN não é um detalhe burocrático. É o coração da questão.
Precedente histórico: Durante a ditadura militar, a Argentina desenvolveu secretamente em Pilcaniyeu a capacidade de enriquecer urânio, um passo crucial para fabricar uma bomba atômica. Documentos desclassificados da CIA mostram que os EUA viveram com “grande incerteza” acompanhando cada passo desse programa, temendo que a Argentina se juntasse ao clube das potências atômicas.
A renúncia soberana de Milei:
- Abandono do CAREM: O reator modular projetado inteiramente por argentinos, um orgulho tecnológico, foi declarado “obsoleto” pelo assessor presidencial Demian Reidel. Sua construção foi paralisada.
- Alinhamento com os EUA: A Argentina se integrou ao programa FIRST do Departamento de Estado, que promove o uso de pequenos reatores modulares de design estadunidense. Na prática, significa trocar a tecnologia própria pela das empresas da órbita de Washington.
- Privatização e desmonte: Há um plano em andamento para privatizar a Nucleoeléctrica Argentina (NASA) e esvaziar a CNEA, empurrando seus cientistas para a fuga ou para a pobreza, para depois entregar o setor a capitais privados.
Ao integrar a CNEA na Comunidade Informativa Nacional, o Estado argentino (sob supervisão da SIDE, agora com o aval dos EUA) garante que não haverá nenhum ressurgimento de capacidade autônoma. Centraliza informações sobre reatores, materiais, pessoal e projetos para garantir que o caminho escolhido seja o da dependência tecnológica.
A “Tapete Vermelho” Legal: Glaciares, Bosques e Terras
O desmonte não é apenas na inteligência e na energia nuclear. Milei está derrubando, uma a uma, as leis que protegiam o território argentino.
Lei dos Glaciares (aprovada em abril de 2026): A lei original (2010) protegia todos os glaciares como “reservas estratégicas” de água doce. A nova lei protege apenas aqueles que tenham “função hídrica efetiva” segundo cada província. O IANIGLA (instituto científico) perde poder vinculante. Atividades extrativas são habilitadas em glaciares “não funcionais”. É a aplicação prática da ideologia de Thiel: eliminar as “traves” dos “ecologistas hippies”.
Lei das Florestas: O projeto oficialista elimina a obrigação de estudo de impacto ambiental para desmates em “zonas verdes”, suprime audiências públicas e reduz os prazos de restauração pós-incêndio, permitindo loteamento ou venda de terras queimadas em tempo recorde. Um ambientalista resumiu: “qualquer um pode incendiar uma montanha hoje e comprá-la amanhã por um preço menor”.
Lei de Terras: O projeto em tramitação no Senado elimina o limite de 15% de terras rurais em mãos estrangeiras e o limite de 1.000 hectares por pessoa. Também reduz para apenas três dias o prazo para despejar um inquilino inadimplente. Organizações sociais alertam que isso desencadeará “um caos” de despejos em massa em bairros populares.
O caso Joe Lewis: O governo Milei arquivou a ação que o Estado argentino havia movido contra o magnata britânico Joe Lewis pela compra fraudulenta de mais de 12.000 hectares na região de Lago Escondido, Río Negro, em 1996. A Procuradoria do Tesouro havia constatado que a operação foi realizada mediante “empresas de fachada e testaferros” para burlar a proibição de compra de terras estratégicas por estrangeiros. Em janeiro de 2026, em pleno recesso judicial, um juiz homologou um “acordo conciliatório” que anula a ação. O processo passou a ter “acesso restrito”.
É o sinal para o mundo: “Podem vir, podem comprar, podem ficar com a terra, mesmo em zonas de fronteira. O Estado não lhes colocará obstáculos”.
A Reforma Eleitoral: O Tabuleiro de 2027
O projeto de lei eleitoral ingressou no Congresso em 22 de abril de 2026. Inclui:
- Eliminação definitiva das PASO (eleições primárias abertas, simultâneas e obrigatórias)
- Ficha Limpa (impede candidaturas de condenados em segunda instância por corrupção)
- Novo financiamento de partidos (eleva pisos de filiação e votos)
- Verificação biométrica para filiações
Não é uma “cortina de fumaça”. A eliminação das PASO beneficia o oficialismo, que tem uma estrutura vertical onde Milei decide as candidaturas. A oposição, fragmentada, precisa das PASO para ordenar suas internas caóticas.
A Ficha Limpa atinge seletivamente o kirchnerismo (Cristina condenada) e setores do PRO (com causas abertas). É um recado aos governadores: apoiem a reeleição de Milei em troca da eliminação das PASO, que também os prejudica.
O advogado Jerónimo Guerrero Iraola advertiu: “Não nos surpreendamos se a Palantir fornecer o software para influenciar no processo eleitoral do ano que vem. Pode parecer teoria da conspiração, mas Cambridge Analytica existiu”.
Conclusão:
Como definiu a ministra do Meio Ambiente de Buenos Aires, Daniela Vilar, isso não é uma série de leis desconexas. É “um desenho coordenado para transferir ativos estratégicos soberanos a interesses estrangeiros”.
O círculo se fecha:
- Desprotege-se o meio ambiente (Leis dos Glaciares e Florestas) para eliminar os argumentos legais que impediam a exploração mineral e imobiliária.
- Facilita-se a compra de terras (Lei de Propriedade) eliminando limites e controles para estrangeiros.
- Legaliza-se a especulação (Reforma da Lei do Fogo) para que terras arrasadas por incêndios entrem rapidamente no mercado.
- Senta-se um precedente (Caso Lewis) para mostrar que o Estado validará compras ilegais do passado.
- Centraliza-se a inteligência (DNU da SIDE) para entregar os dados de todos os argentinos à Palantir.
- Desmonta-se a capacidade nuclear autônoma (abandono do CAREM, integração ao programa FIRST) para assegurar a dependência tecnológica.
- Reforma-se o sistema eleitoral para garantir a continuidade do projeto.
- E tudo isso acontece enquanto Thiel pisa na Casa Rosada.
O que Thiel busca na Argentina não é um golpe de Estado militar. Isso seria grosseiro e contraproducente. Ele busca uma captura institucional por dentro, aproveitando a vocação desreguladora de Milei para instalar suas empresas como fornecedoras críticas de inteligência e vigilância. Uma vez que o Estado argentino dependa do software da Palantir, será muito difícil removê-lo.
O “cão farejador” Thiel não fareja apenas crises. Fareja impunidade. E o governo argentino está lhe estendendo um tapete vermelho tecido com as leis que revoga. Questão final: Se o Estado argentino terceiriza sua inteligência para uma empresa que responde aos interesses da CIA e do Pentágono, quem realmente controla as informações sobre os cidadãos argentinos?
