O barbeiro escancara o fiasco Milei: dois modelos de país na luta contra o Mal de Chagas

19/04/2026│Enquanto o Brasil reforça sua lendária vigilância epidemiológica e investe milhões numa vacina de mRNA contra o Mal de Chagas, na Argentina mais de 42 mil barbeiros vivos foram abandonados à própria sorte em um hospital de Córdoba.

Por Ramiro C. H. Caggiano Blanco (*)

Os frascos de vidro que os continham, antes cuidados por pessoal especializado do agora extinto Centro Nacional de Diagnóstico e Investigação em Endemo-Epidemias (CeNDIE), são hoje a metáfora mais cruel e precisa do deserto em que se converteu o sistema científico-sanitário argentino sob a motosserra de Javier Milei.

A comparação entre ambos os países não é um exercício acadêmico menor. Brasil e Argentina compartilham a geografia do Trypanosoma cruzi, parasita que habita o intestino do barbeiro e que ainda afeta cerca de 1,9 milhão de brasileiros e mais de 1,6 milhão de argentinos. No entanto, as respostas de seus Estados não poderiam ser mais opostas.

O Brasil, mesmo em seus piores momentos políticos recentes, manteve uma premissa básica da saúde pública: a ciência se defende com continuidade e orçamento. Durante o governo de Jair Bolsonaro —um negacionista climático e sanitário confesso— não se registrou um desmonte sistemático dos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) nem do Instituto Butantan. Os barbeiros brasileiros, produzidos em seus próprios biotérios, continuaram sendo alimentados com sangue de galinha e monitorados para avaliar a resistência a inseticidas. Nem mesmo a “dupla dinâmica” de Michel Temer e o próprio Bolsonaro chegou ao extremo de fechar um programa de controle de vetores que funcionava há quatro décadas.

Hoje, Lula da Silva encarna o projeto de país antagônico ao de Milei, mas a diferença central não é apenas ideológica: é institucional. No Brasil, o Estado assume a endemia como uma responsabilidade inegociável. Por isso, enquanto o ministro da Saúde argentino, Mario Lugones, assina decretos de “fusão” que, na prática, são fechamentos, o governo brasileiro acaba de injetar 12 milhões de reais para reforçar a captura de barbeiros em 17 estados e a Fiocruz anuncia avanços em uma vacina de proteína quimérica que conseguiu a sobrevivência total dos animais vacinados.

O paradoxo é cruel e profundo. A Argentina não é um país alheio a essa luta; pelo contrário, tem uma dívida de honra com sua própria história científica. Foi o médico santiaguenho Salvador Mazza quem, entre as décadas de 1920 e 1940, dedicou sua vida a demonstrar que o Mal de Chagas existia no país. Ele fundou a Missão de Estudos de Patologia Regional Argentina (MEPRA) em Jujuy e denunciou, com uma clareza surpreendente para sua época, que a doença era um problema estrutural de pobreza e más condições de moradia. Graças ao seu trabalho titânico de campo, a comunidade internacional batizou a afecção como Doença de Chagas-Mazza. O que o governo de Javier Milei está abandonando hoje não é apenas um laboratório com 42 mil insetos e 79 galinhas sem alimento; é o legado vivo de um dos maiores médicos que a região já produziu, um patrimônio científico construído ao longo de um século.

O fechamento do laboratório de Santa María de Punilla é apenas a ponta do novelo de um plano sistemático de extinção do Estado como garantidor da saúde coletiva, junto com o encerramento do Instituto Nacional de Medicina Tropical (Inmet) em Misiones, a dissolução do programa Remediar (que fornecia medicamentos a 20 milhões de pessoas) e o esvaziamento do Hospital Bonaparte para doentes mentais. Quem analisará agora os barbeiros que forem coletados nas campanhas de prevenção nas províncias de Salta ou de Chaco? A resposta, simplesmente, não existe.

Na prática, o governo argentino liberou uma bomba-relógio epidemiológica. Os barbeiros que sobreviverem sem controle por seis meses podem escapar, se infectar e reanimar a cadeia de transmissão do Chagas em áreas endêmicas. É um retrocesso de décadas em apenas dois anos de gestão.

O desfecho, no entanto, não é apenas sanitário. É também moral. A última pesquisa da Universidade de San Andrés, publicada em abril de 2026, revela que 61% dos argentinos rejeitam a gestão de Milei. E entre os sentimentos que predominam nessa rejeição majoritária, há três que resumem tudo: vergonha, decepção e nojo. Dois países, dois modelos. Um investe em ciência para salvar vidas. O outro, enquanto abandona 42 mil barbeiros em frascos de mel e despreza o legado de Mazza, colhe a vergonha do seu próprio povo. A imagem do desmonte argentino não é apenas uma tragédia sanitária: é a definição mais precisa de um Estado que, longe de proteger seu povo, decidiu desaparecer.

(*) Bacharel em direito, doutor pela USP e comunicador social