14/04/2026│As três experiências que se seguem — Grafton, Argentina e Estados Unidos — compartilham um mesmo equívoco libertário: acreditar que desmontar o Estado é sempre uma economia. Em todos os casos, a conta final foi muito mais cara.
Por Ramiro C. H. Caggiano Blanco (*)

Primeiro foram os ursos.
Em meados dos anos 2000, um grupo de libertários americanos teve uma ideia tão pura quanto perigosa: mudar-se para Grafton, uma pequena cidade de New Hampshire, e eliminar qualquer vestígio de Estado. Sem impostos, sem regulamentações, sem coleta de lixo. Cada um seria dono da sua liberdade e das suas consequências.
O experimento terminou como tinha que terminar: com ursos negros saindo da floresta e entrando nas casas. Sem lixeiros para pagar, a comida ficou ao alcance das patas. Os ursos perderam o medo, pararam de hibernar e começaram a atacar pessoas. O primeiro ataque em mais de um século ocorreu em 2012. Uma mulher foi atacada dentro da sua própria cozinha.
O Estado voltou a Grafton pela porta de emergência. E saiu mais caro do que antes: para remediar o desastre, tiveram que aumentar os impostos em 50% acima do que era cobrado antes da aventura libertária. A motosserra, no balanço final, não economizou: multiplicou o gasto.
Segundo foi a motosserra argentina.
Décadas depois, Javier Milei trouxe a mesma lógica para o sul. A promessa era cortar gastos desnecessários. O problema é que a motosserra não distingue entre gordura e músculo. O Estado argentino começou a sangrar por todos os lados: o PAMI que atende os aposentados, o INTI que certifica a indústria, o INTA que sustenta a pesquisa agropecuária… e o SENASA, claro.
O SENASA foi o exemplo perfeito — e o mais caro. Desmontaram seus controles sanitários, eliminaram registros obrigatórios, flexibilizaram barreiras históricas. A aposta era que o mercado só castigaria os maus.
O mercado não castiga: ele devolve a carne.
Primeiro foi o Chile, que detectou riscos de febre aftosa e fechou a fronteira. Depois foi a China, que encontrou um antibiótico proibido e rejeitou 22 toneladas. A motosserra tinha cortado exatamente onde mais dói: a confiança. E sem confiança, o país exportador fica sem país.
Terceiro chegou o DOGE.
A mesma filosofia, agora na Casa Branca. Elon Musk, à frente do Departamento de Eficiência Governamental, aplicou a receita com entusiasmo. Era preciso eliminar a gordura estatal. A gordura, segundo o diagnóstico, eram os analistas do Oriente Médio, os especialistas em petróleo, os diplomatas de carreira.
Cortaram. Demitiram. Esvaziaram escritórios inteiros. Chegaram ao absurdo de eliminar o escritório dedicado ao Irã e fundi-lo com o escritório do Iraque.
O Escritório de Recursos Energéticos perdeu quase todos os que sabiam modelar uma crise no Estreito de Ormuz. O Escritório de Assuntos do Oriente Médio perdeu 80 funcionários. O cargo de subsecretário para a região ficou vago.
Seis meses depois, Irã e Estados Unidos entraram em um conflito aberto. E ninguém em Washington sabia com quem falar, qual botão apertar ou como ler o tabuleiro. O setor petrolífero reclamou: “Não temos ninguém para ligar”. Os cidadãos presos na zona de guerra, também.
O espelho: dois inventores políticos e dois executores mercenários.
Milei e Trump se parecem mais do que querem admitir. Cada um, à sua maneira, é um inventor político: Milei criou o Ministério da Desregulamentação; Trump inventou o DOGE. Dois laboratórios da mesma ideia-mãe: o Estado é o problema, e a solução é cortar sem olhar.
Mas por trás deles há dois executores com vocação fundamentalista: Federico Sturzenegger na Argentina, Elon Musk nos Estados Unidos. Homens de convicção pura (ou de ambição pura) que não param para perguntar o que se perde no caminho. A motosserra de Sturzenegger e o machado de Musk são a mesma ferramenta com logotipos diferentes. Um desmontou o SENASA; o outro, a inteligência sobre o Irã. Um deixou o país sem controles sanitários; o outro, sem analistas no meio de uma guerra.
Ambos acreditam que o mercado resolve tudo. Ambos erraram ao mesmo tempo, em dois continentes diferentes, com duas crises diferentes. Mas o erro é o mesmo: confundir eficiência com eliminação.
A lição final.
Trump terminou num beco sem saída. O mesmo beco em que entram todos os que acreditam que o Estado é apenas um gasto e não uma ferramenta. Porque os ursos não negociam com o mercado. A aftosa não entende de desregulamentação. E os mísseis não esperam a reengenharia administrativa terminar.
A lição de Grafton, de Milei e do DOGE é a mesma, escrita em diferentes idiomas: o Estado não é o inimigo. O Estado é o que resta quando o urso entra na sua casa. E se você o desmontar antes, depois o monta às pressas. Sempre mais caro. Sempre pior. Como em Grafton, com 50% mais impostos. Como na Argentina, com toneladas de carne devolvidas. Como em Washington, com um beco sem saída e um míssil ao fundo.
(*) Bacharel em direito, doutor ela USP e comunicador social.
