04/04/2026 | Milei prometeu déficit zero e baixar a inflação. Conseguiu o primeiro à custa de destruir a economia real. Mas agora enfrenta uma contradição insolúvel que nenhum de seus manuais neoliberais prevê.
Por Ramiro C. H. Caggiano Blanco

1. As duas promessas sagradas
Javier Milei construiu sua campanha sobre duas promessas: déficit zero e inflação zero. A primeira, cumprida a sangue e fogo, literalmente! Com fome e repressão, a Argentina teve superávit fiscal primário em 2024 e 2025, algo que não ocorria desde 2008. A segunda, no entanto, escapa de suas mãos.
Mas o problema não é apenas que a inflação não cai no ritmo prometido. O problema é mais profundo e ameaça derrubar as duas colunas do seu modelo.
2. O dilema que ninguém quer nomear
Se a arrecadação cai —pelo colapso das importações, pela recessão e pela falta de produtividade—, como o governo fará frente às despesas correntes? As respostas possíveis são todas ruins. Se aumenta impostos, esse custo é transferido para os preços, gerando mais inflação, menos consumo, mais recessão e, no fim do caminho, menos arrecadação. Se opta por emitir moeda, o resultado é o mesmo: mais inflação e o círculo se repete. Se se endivida, o mercado não empresta sem taxas exorbitantes, o que implica mais pressão fiscal futura. Os mercados financeiros internacionais, que desconfiam do ministro da economia Luis Caputo, que deu calote em 2018 quando era ministro de Macri, e do risco-país, que nunca esteve abaixo dos 500 pontos”. E se ajusta mais, já não há gordura para cortar sem fechar hospitais e escolas. O resultado é o pior dos mundos: inflação com depressão econômica. A estagflação.
3. Os números que assustam
A economia argentina já mostra os sintomas desse círculo vicioso. O PIB de 2025 cresceu 4,4%, mas o número é enganoso: a economia se contraiu em dois dos últimos três meses do ano, e sem o setor agropecuário o resultado teria sido negativo. O consumo das famílias caiu 2,8% em novembro de 2025 em relação ao mesmo mês do ano anterior. A indústria manufatureira desabou 3,9% em 2025: mais de 21.000 empresas fecharam e cerca de 300.000 empregos formais foram perdidos. E a arrecadação tributária vem abaixo da inflação há sete meses consecutivos. O governo comemorou o superávit fiscal, mas esse superávit foi obtido à custa de um ajuste brutal: a despesa pública primária caiu de 25% do PIB para 18,1%. Não há mais gordura para cortar sem afetar o osso.
4. A miragem dos 25% de dezembro de 2023
O governo de Milei havia prometido que, para março de 2026, a inflação seria “menos da metade” daquela que receberam ao assumir. Mas esse número de referência —os famosos 25% de dezembro de 2023— não foi uma “pesada herança” nos termos que o oficialismo apresenta. Foi, em grande medida, uma construção do próprio Milei.
Por que a inflação de dezembro de 2023 foi de 25%? Além da maior seca dos últimos 50 anos, que pressionou o dólar ao diminuir as exportações agrícolas, há 3 fatores totalmente atribuíveis a Javier Milei que explicam esse pico:
- A campanha contra o peso. Durante toda a campanha eleitoral, Milei classificou o peso argentino como “excremento” e prometeu dolarizar a economia. Essa declaração constante fez com que a população saísse para comprar dólares “para se prevenir”.
- O efeito da vitória eleitoral. A vitória de Milei em 19 de novembro de 2023 gerou uma alta “preventiva” de preços diante da possibilidade real de uma dolarização.
- A desvalorização oficial de 128%. Assim que assumiu, seu ministro Luis Caputo desvalorizou o peso de 365 para 800 pesos por dólar. Esse foi o golpe final.
Conclusão: os 25% de dezembro de 2023 não foram apenas “herança”. Foram uma profecia autocumprida pelo próprio discurso e pelas medidas do atual governo.
Hoje, a três meses de 2026, a inflação se estabilizou num piso de 3% mensal. Parece uma conquista em comparação com os 25%, mas não é. A promessa de campanha era “inflação zero”, não “inflação mais baixa que a hiper” que ele contribuiu para gerar. E 3% ao mês continua sendo 42% ao ano, um número que corrói salários e aposentadorias. Isso sem entrar nas manipulações e artifícios estatísticos realizados pelo INDEC mentiroso da era Milei.
5. A armadilha perfeita
Esse círculo vicioso é uma armadilha perfeita: a arrecadação baixa gera a necessidade de aumentar impostos, o que se traduz em aumento de preços, mais inflação, menor consumo, mais recessão e, fechando o círculo, uma arrecadação ainda mais baixa. E a cereja do bolo: o Orçamento 2026 projeta um dólar a $1.423 em dezembro (em pesos argentinos), enquanto os economistas privados esperam $1.665. O governo está planejando com uma taxa de câmbio fictícia que subestima a inflação real.
6. O corolário do ajuste: um SENASA desmontado
O caso do SENASA não é um detalhe menor. O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar é chave para as exportações argentinas. Seu desmantelamento —como parte da motosserra— afeta diretamente a capacidade do país de gerar divisas.
Por iniciativa do ministro da Desregulação, Federico Sturzenegger, o governo aplicou um ajuste brutal no SENASA: eliminou o registro obrigatório de empresas certificadoras, com o que se perdeu a rastreabilidade; cortou o orçamento a ponto de o órgão deixar de atualizar os registros de alertas sanitários; e editou a Resolução 460/2025, que habilitou a entrada de carne com osso em zonas livres de aftosa.
As consequências não demoraram a chegar:
- Chile (agosto de 2025): suspendeu as importações de carne argentina por medo da febre aftosa.
- China (março de 2026): rejeitou 22 toneladas de carne do frigorífico ArreBeef por presença de cloranfenicol (antibiótico proibido há 30 anos).
O custo: a China é o principal mercado da carne argentina: 458.360 toneladas em 2025. A planta da ArreBeef emprega 900 pessoas diretamente e 400 temporárias.
O dirigente ruralista Eduardo Buzzi foi lapidar:
“Essa desregulamentação de Sturzenegger que tem como objetivo enfraquecer o Senasa e os controles está nos gerando problemas de mercado. Já aconteceu com a China e o Chile e pode se estender a outros destinos.”
A lição: cada peça do Estado que se destrói não afeta apenas um serviço público. Afeta a arrecadação, a produtividade e a capacidade de gerar crescimento. A motosserra não distingue entre gasto supérfluo e gasto estratégico.
7. As duas promessas quebradas
Por esse caminho, o governo não conseguirá cumprir nenhuma de suas duas principais promessas. O déficit zero já foi cumprido (em termos primários), mas o custo social foi monstruoso: a pobreza ainda ronda os 40%, perderam-se 300.000 empregos públicos e a indústria ficou destruída. Para mantê-lo seria necessário mais ajuste, o que aprofundaria a recessão e liquidaria ainda mais a arrecadação. A inflação zero, por sua vez, é a promessa em risco: o governo projeta 10,1% para 2026, mas os economistas privados preveem 17,7%. A razão é que o próprio ajuste gera pressões inflacionárias: aumento de tarifas, dólar atrasado e a tentação de emitir moeda para cobrir o buraco da arrecadação.
8. Conclusão
Milei prometeu baixar a inflação com déficit zero. Conseguiu o segundo à custa de destruir a economia real. Mas agora enfrenta uma contradição insolúvel:
- Manter o déficit zero exige mais ajuste, que aprofunda a recessão e liquida a arrecadação.
- Aliviar o ajuste para reativar a economia implica emitir ou endividar-se, o que reaviva a inflação.
Não há saída virtuosa com este modelo neoliberal. O governo escolherá o déficit zero mesmo que isso signifique condenar a Argentina a uma década perdida.
A casta que prometeu destruir não eram os políticos: era a própria classe média trabalhadora que sustentava o consumo e o fisco. E o SENASA desmontado é apenas um sintoma de uma motosserra que, mais cedo ou mais tarde, corta o chão que pisa.
