02/04/2026│Enquanto o Reino Unido e Israel se unem para saquear o petróleo da plataforma continental argentina, a América Latina assiste passiva. Está na hora de olhar para nossas próprias riquezas com olhos de continente.
Por Ramiro C. H. Caggiano Blanco (*)
A cada 2 de abril, a Argentina recorda seus caídos nas Malvinas e reafirma um direito inquestionável: as ilhas usurpadas pelo Reino Unido em 1833 são solo argentino. A ONU, através de mais de 60 resoluções, convida Londres a negociar. Mas o Reino Unido não apenas ignora o chamado da comunidade internacional — aprofunda a afronta.

Na última semana, enquanto o governo Milei se perdia em cortinas de fumaça diplomáticas (declarando o Irã nação terrorista e rompendo relações), uma notícia passou quase despercebida: a petrolífera israelense Navitas Petroleum, em parceria com a britânica Rockhopper Exploration, anunciou investimento de US$ 1,8 bilhão para explorar o campo de petróleo Sea Lion nas águas das Malvinas. A previsão é extrair 315 milhões de barris a partir de 2028.
O governo Milei, tão fiel a Israel que se autodenomina “o presidente mais sionista do mundo”, respondeu com um tímido “é uma decisão ilegítima”. O chanceler israelense Gideon Sa’ar, por sua vez, limitou-se a “lamentar os sentimentos difíceis”. E assim, enquanto Buenos Aires discursa, Londres e Tel Aviv embolsam o petróleo.
O saque que a imprensa não mostra
Mas a exploração britânico-israelense nas Malvinas é apenas a ponta do iceberg. O Reino Unido já concede licenças de pesca predatória a potências europeias nas águas argentinas. O Estreito de Magalhães e a Passagem de Drake, rotas vitais num mundo onde o Canal de Suez e o Estreito de Ormuz estão em chamas, estão sob vigilância de uma base da OTAN instalada nas ilhas. E, como pano de fundo, a Antártida se aproxima de 2048, ano em que o Tratado Antártico poderá ser revisado — e os países anglo-saxões já preparam suas reivindicações territoriais.
Diante disso, cabe perguntar: onde está a América Latina?
A oportunidade que se perde
As Malvinas não são apenas uma causa argentina. São uma causa continental. A usurpação britânica constitui a presença da OTAN na América do Sul. E o saque dos recursos naturais das ilhas é um alerta sobre o que pode acontecer na Antártida se não nos anteciparmos.
O petróleo da bacia marítima de Malvinas — que integra a plataforma continental argentina — poderia ser explorado pela própria região. A Petrobras é líder mundial em exploração em águas profundas e ultraprofundas, com décadas de experiência na camada do pré-sal, em lâminas d’água que alcançam 6 mil metros . A YPF tem conhecimento local e infraestrutura na Patagônia. E a Pemex, que em abril receberá a presidente da Petrobras para discutir uma parceria estratégica no Golfo do México, poderia somar sua experiência em projetos complexos.
Por que não uma joint venture latino-americana? Petrobras + YPF + Pemex. Uma aliança tecnológica e econômica para desenvolver nossos próprios recursos, com nossas próprias empresas, gerando empregos, divisas e soberania.
O pensamento de Methol Ferré
O grande pensador uruguaio Alberto Methol Ferré definiu o que chamou de “geopolítica latino-americanista”. Para ele, a região não pode seguir fragmentada, refém das potências extrarregionais. O século XXI, argumentava, seria o século da afirmação continental ou da irrelevância definitiva.
Methol Ferré insistia que a integração não é um adorno ideológico, mas uma necessidade estratégica. O controle dos recursos energéticos, das rotas marítimas e da Antártida exige uma visão de conjunto. As Malvinas são o laboratório dessa tese: ou a América Latina age como bloco, ou continuará assistindo, impotente, enquanto outros levam o que é nosso.
Enquanto isso, o mundo avança
O Reino Unido e Israel já estão na bacia das Malvinas. A China e os Estados Unidos disputam influência no Atlântico Sul. A OTAN amplia sua presença. A única região que parece ausente é a própria América Latina.
O governo argentino, envolvido em suas próprias contradições e escândalos, não liderará esse movimento sozinho. Mas Brasil, México, Uruguai, Chile e os demais países da região podem e devem exigir uma posição conjunta. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) poderia ser um foro natural para esse debate — mas apenas se houver vontade política.
Conclusão
Enquanto a América Latina perder tempo com brigas ideológicas do século passado, ingleses e israelenses extraem petróleo em nossas águas, pescam nossos cardumes e preparam a ocupação da Antártida. A soberania não se proclama — se exerce . E exercê-la significa, neste momento histórico, construir uma aliança energética continental com nossas próprias empresas, nossa própria tecnologia e nossos próprios interesses.
A proposta está lançada: que a Petrobras, a YPF e a Pemex se sentem à mesa. Que o Brasil, a Argentina e o México liderem um movimento latino-americano pelo desenvolvimento dos recursos da bacia de Malvinas — e, amanhã, da Antártida. Ou continuaremos sendo, como sempre fomos, espectadores do nosso próprio saque.
