03/02/2026 | O ministro da economia, Luis Caputo, fala apenas do índice de janeiro, mas omite que a inflação teria sido ainda mais alta a partir de fevereiro. Os outros problemas que o governo procura evitar com a reversão.
Por Javier Slucki
FONTE: El Destape

Embora Javier Milei e Luis Caputo promovam a ideia de que as mudanças no Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) são inócuas e que a inflação teria sido a mesma ou mais baixa com o novo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) cancelado, o governo tem mais de uma razão para ter colocado no órgão um funcionário alinhado que aceitasse manter o sistema de medição atual para a alta de preços.
Nesta terça-feira, o próprio Caputo saiu para garantir que o IPC de janeiro medido com a nova cesta (de 2017-2018) teria dado um décimo a menos do que com a cesta atual (de 2004-2005). Na segunda-feira, havia revelado que a inflação de janeiro seria de aproximadamente “2,5%”. Dessa forma, o ministro da Economia buscou afastar a ideia de que a reversão com o novo IPC se deveu ao fato de que a inflação de janeiro seria muito alta, de até 3,5%, segundo alguns vazamentos.
Um levantamento elaborado pela consultora Equilibra mostrou que a média estimada para o IPC de janeiro era de 2,4%, em linha com o antecipado pelo titular do Palácio da fazenda. No entanto, a consultora PxQ prognosticou nesta terça-feira que teria alcançado 3%. Mas as diferenças não se limitam apenas à inflação de janeiro.
O problema da inflação de fevereiro
O que Caputo omite é que, se a publicação do novo IPC tivesse sido mantida, o problema real viria com a inflação de fevereiro, que será conhecida em meados de março. Isso se deve ao fato de que o novo IPC, agora cancelado, atribuía um peso maior às tarifas de energia, dando mais realismo, já que o usado atualmente foi elaborado antes dos grandes aumentos tarifários de Macri e das posteriores retiradas de subsídios.
Concretamente, o IPC vigente, baseado na cesta de 2004-2005, dá uma ponderação de apenas 9,8% ao item “habitação”, que inclui gás, eletricidade e água, enquanto o novo IPC, baseado na cesta de 2017-2018, eleva essa ponderação para 14,5% do total.
Isso gerava uma combinação explosiva com a retirada de subsídios energéticos, que se traduziu em um aumento de 3,6% na luz (para a AMBA) implementado em 16 de janeiro e em um aumento de 16% para o gás (em nível nacional) implementado no último domingo. Ou seja, esses aumentos, mais significativamente o forte aumento tarifário no gás, só teriam um impacto pleno na inflação de fevereiro.
A consultoria EcoGo estimou que apenas o aumento nos serviços gerará em fevereiro uma inflação de 1,6 pontos percentuais, um número que também inclui os aumentos nos serviços de habitação e transporte. Portanto, é fácil pensar que, com o restante dos itens, o IPC do mês em curso poderia mostrar uma inflação vários décimos mais alta que a de janeiro.
De qualquer forma, após o verão, ao longo de 2026, a retirada de subsídios terá cada vez mais peso, pois o subsídio extra de 25% estabelecido como transição apenas para este ano será progressivamente reduzido.
Os outros problemas derivados da reversão com o IPC
A aplicação do novo IPC teria significado uma inflação maior para todo o ano de 2026. As consequências teriam sido muito mais amplas do que a inflação em si, atingindo outros aspectos macroeconômicos.
Por um lado, teria afetado os salários reais. Sem ir mais longe, o CEPA calculou que, com o novo IPC agora descartado, entre novembro de 2023 e novembro de 2025 a queda dos salários reais registrados teria sido de 15,7 pontos e não de “apenas” 6,4 pontos como com o IPC vigente.
Por outro lado, o novo IPC teria comprometido mais o superávit oficial, já que aposentadorias, benefícios da Anses (aposentadorias e pensões) como a AUH (plano social para que tem filhos) e títulos indexados (CER) estão vinculados à alta de preços registrada em nível nacional.
Este último ponto poderia, potencialmente, gerar até mesmo problemas judiciais para os funcionários envolvidos na reversão. “É muito provável”, advertiu a respeito o advogado constitucionalista Daniel Sabsay, consultado pelo El Destape sobre se é possível que se gerem litígios pelo menor retorno que os títulos CER proporcionarão com a suspensão do novo IPC.
Paralelamente, o governo também criou um problema com o FMI, já que havia acordado formalmente com o organismo de crédito publicar o novo IPC até “o final de 2025”. Agora, o Fundo se encontra em um dilema: ou critica o governo argentino poucos dias antes da chegada da missão técnica ao país para a próxima revisão, ou convalida as mudanças no Indec e descumpre a si mesmo, mais uma vez.
