Crise social: quatro em cada dez lares usaram poupança ou venderam pertences para chegar ao fim do mês

13/11/2025 | Durante o primeiro semestre de 2025, em pleno ajuste do governo de Javier Milei, 40,8% das famílias precisaram usar suas economias ou vender bens para cobrir gastos básicos.

FONTE: Contexto

A crise econômica continua atingindo a vida cotidiana das famílias argentinas. De acordo com o último informe do INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos) sobre as estratégias de sustento dos lares, quatro em cada dez famílias (40,8%) utilizaram poupança ou venderam pertences no primeiro semestre de 2025 para cobrir suas necessidades básicas. O número representa um forte aumento em relação a 2003, quando começou a série desta medição oficial; naquela época, o percentual era de 19,9%.

O estudo, intitulado “Estratégias de Sustento. Como os lares argentinos organizam sua economia?”, analisa os mecanismos que as famílias utilizam para manter seu consumo para além da renda do trabalho ou de transferências do Estado.

Segundo os dados oficiais, o uso da poupança duplicou nas últimas duas décadas e se consolidou como uma das principais estratégias para chegar ao fim do mês durante o primeiro semestre de 2025, em pleno ajuste do governo de Javier Milei. Esse período mostrou que 37,4% dos lares gastaram suas economias e 9,3% precisaram vender pertences para cobrir consumos básicos, de acordo com o INDEC. No total, quatro em cada dez famílias — 40,8% do total — recorreram a alguma forma de descapitalização, um nível inédito desde que os registros existem.

O organismo alertou que esta tendência reflete a deterioração da renda real e a perda da capacidade de poupança dos lares diante da inflação e da queda do poder aquisitivo dos salários.

O levantamento do INDEC, revela que um em cada quatro lares se endividou em 2025, seja através do sistema financeiro ou por meio de empréstimos informais de familiares ou amigos. No caso dos setores de menor renda, o endividamento informal predomina: três em cada dez lares de baixa renda solicitaram empréstimos, enquanto entre os de maior renda predomina o acesso ao crédito bancário.

Além disso, metade dos lares argentinos (50,9%) comprou a prazo ou fiado com cartão de crédito ou bancos virtuais, um incremento de quase 30 pontos percentuais em relação a 2003. O informe ressalta que “o financiamento dos gastos — seja por vias formais ou informais — aumentou consideravelmente nos últimos anos”, refletindo a crescente dependência do crédito para manter o consumo diante da perda do poder aquisitivo.

Uma economia de resistência

O informe destaca que o contexto socioeconômico condiciona fortemente a maneira como os lares organizam sua economia. Vinte anos após a primeira medição, o panorama mostra uma crescente fragilidade: a maior parte das famílias combina renda do trabalho com subsídios, endividamento ou descapitalização para manter o consumo.

Em síntese, 82% dos lares vivem de renda do trabalho, mas cada vez mais famílias precisam complementar essa renda com estratégias de emergência. A utilização de poupança, a venda de pertences, os empréstimos e as compras financiadas conformam uma rede de proteção que, longe de representar prosperidade, expõe a precariedade estrutural e a deterioração social aprofundadas durante o primeiro ano do governo de Milei.