27/05/2015│A escalada autoritária do governo Milei não poupa nem o protagonista da série, Ricardo Darín, e destrói os pilares republicanos da Argentina.
Por: Ramiro Carlos Caggiano Blanco

Domingo 25, de manhã, Milei teve que ouvir do arcebispo da cidade de Buenos Aires, José García Cuerva, uma dura crítica ao seu governo feita na missa comemorativa da festa pátria do 25 de Maio. E não gostou nada!!! Pensaram em ativar o exército de trolls para sair a responder ao arcebispo, mas ponderaram que não era momento oportuno para mexer com a Igreja Católica, embora o presidente libertário adora uma polêmica e não suporta ouvir verdades.
Porém, o ator Ricardo Darín, protagonista da série “O Eternauta” – e ganhador do Oscar pelo filme “O segredo de seus olhos” – não teve a mesma sorte de Cuerva. Na noite anterior, sábado 24, o ator tinha participado do programa de Mirtha Legrand, lendária apresentadora de TV, no qual criticou os efeitos sociais da política econômica de Milei, pondo como exemplo o alto preço de uma dúzia de empanadas.
“Na verdade, não entendo nada. Me intriga isso de usar os dólares do colchão. De quem estão falando? Uma dúzia de empanadas custa 48.000 pesos! Então, realmente não entendo do que estão falando (no governo). Tem muita gente sofrendo muito (pela crise)”, apontou Darín.

Desta vez, os trolls libertários o atacaram sem piedade nas redes sociais sob o argumento de que as empanadas que comprava o ator eram muito caras. “Coincidentemente”, no domingo e na segunda-feira, 26, todos os jornalistas “governistas” só falaram do preço das empanadas e do erro de Darín. Tudo devidamente retuitado na conta oficial do Milei em tom de provocação. E até o próprio ministro da economia, Luis Caputo, atacou o ator e insinuou que era um ignorante.

Com muita sobriedade e elegância, Darín respondeu às críticas. Os jornalistas não alinhados com o governo saíram em sua defesa porque, como eles apontaram, o governo está empenhado em silenciar toda voz dissidente, até a dos artistas, e lembraram as campanhas sujas de Milei contra as cantoras María Becerra e Lali Espósito, entre outros (https://www.pagina12.com.ar/803835-la-furibunda-contienda-de-javier-milei-contra-los-artistas-a).
Tudo não passaria de um embate midiático entre figuras públicas se não fosse pela revelação do jornalista investigativo, Alconada Mon, de que a SIDE (Secretaria de Inteligência do Estado, semelhante à ABIN brasileira) mirava nos formadores de opinião pública que desgastassem “a confiança nos funcionários públicos”, ou seja, nos jornalistas e analistas críticos ao governo Milei.
Após a denúncia feita no jornal La Nación, de direita, (https://www.lanacion.com.ar/politica/la-side-pone-la-mira-en-quienes-manipulen-la-opinion-publica-o-erosionen-la-confianza-en-los-nid25052025/), o jornalista Mon sofreu insultos, ameaças e tentaram hackear seu telefone e conta de e-mail (https://www.eldiarioar.com/politica/alconada-mon-denuncio-amenazaron-publicar-plan-inteligencia-side_1_12331762.html), segundo ele denunciou na sua conta na rede X:
O episódio com Darín poderia ter ficado no que o velho ditado diz: “Quando o sábio aponta com o dedo em direção à lua, os bobos ficam olhando para o dedo”, ou discutindo o preço da empanada para desviar a atenção, como fizeram maliciosamente os trolls pagos pelo governo.
Entretanto, o episódio com Darín, dentro do contexto político com linchamento virtual aos artistas e jornalistas, repressão toda quarta-feira aos aposentados e trabalhadores na Praça Congresso em Buenos Aires, ameaça de intervir ou fechar sindicatos e uso do aparelho de inteligência do estado para perseguir jornalistas e intelectuais, revela um acionar político obscuro de um governo que já começa a se perfilar como autoritário ou ditatorial.
