24/07/2024│O economista Alejando Marcó del Pont analisa os mecanismos e agentes por trás do grande negócio das guerras.
FONTE: El Tábano Economista
Por: Dr. Alejandro Marcó del Pont
A guerra se alimenta de si mesma (Lívio).
A sentença de Tito Lívio ainda é válida, após dois mil. Embora as evidências sugiram que é possível pôr fim a conflitos armados prolongados através de medidas concretas para promover a paz, há outra narrativa que incorpora elementos econômicos. Estes lembram as políticas keynesianas de despesa pública, que promovem a geração de riqueza e emprego mediante o gasto bélico. De acordo com essa perspectiva, investir em armas gera empregos, crescimento econômico e segurança, apresentando as armas como um requisito necessário tanto para a sustentabilidade econômica como para a própria democracia.
Esta última narrativa ganha vida na Europa perante a possibilidade crescente do antigo presidente Donald Trump regressar à Casa Branca. Este cenário geraria grandes negócios para a indústria bélica americana, colocando em jogo a possibilidade de utilizar as receitas fiscais europeias para fortalecer as do complexo militar-industrial da potência do Norte, ou para alocar uma parte desses ingressos à indústria bélica europeia.
Segundo a Reuters, o ex-presidente iria repensar a sua política externa, especialmente a OTAN, o papel dos EUA na Ucrânia e a sua aliança europeia. Ou seja, qual é o propósito e a missão da OTAN? Trump prometeu pedir à Europa que reembolse os Estados Unidos pelos “quase 200 bilhões de dólares” em munições enviadas para a Ucrânia. Quanto à guerra em si, ele disse que resolveria o conflito antes mesmo de assumir o cargo. No que diz respeito à Europa, é claro que a guerra na Ucrânia permanecerá nas mãos dos europeus, desde o seu financiamento até seu armamento. Embora as armas tivessem que ser adquiridas dos EUA, isso nos leva à narrativa europeia.
De acordo com o Instituto Internacional de Estocolmo de Pesquisa para a Paz (SIPRI), que pesquisa a segurança internacional e as armas desde 1966, os recursos atribuídos ao exército pelos governos de todo o mundo ascendem a pouco mais de 2,24 trilhões de dólares, o nível mais alto registrado pelo SIPRI: 2,2% do PIB mundial. Globalmente, os governos gastam uma média de 6,2% dos seus orçamentos nas forças armadas, ou seja, 282 dólares por pessoa por ano.
“Temos que gastar mais, temos que gastar melhor, temos que gastar na Europa.” Foram estas as palavras com que a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula Von der Leyen, resumiu numa entrevista ao The Financial Times a nova estratégia europeia para fortalecer a indústria de armamentos do continente. O que parece uma frase simples vira de cabeça para baixo os alicerces neoliberais sobre os quais a União Europeia (UE) foi construída, expressos no artigo “A economia europeia veste-se de camuflagem”.
Vários vetores emergem dessas frases. A ideia é que investir na guerra é bom e beneficia a sociedade. Se uma indústria de guerra se desenvolve com vencedores claros, como veremos, e se esta indústria é financiada pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) ou por obrigações mutualizadas com dívida, é parte do debate. Todos estes mecanismos são motivo de disputas, apesar das mortes geradas pelas guerras. Esse “gastar europeu” que defendia Von der Leyen, torna-se um “emprestar europeu” que deleita a grande indústria armamentista do velho continente, com fundos que deveriam ser direcionados para a transição ecológica, o fortalecimento de outras indústrias ou a busca pela independência energética.
É verdade que este discurso, como mostram as declarações da ministra da Defesa espanhola, Margarita Robles, já tem anos. “A indústria de defesa espanhola cria muitos empregos”, disse numa entrevista em 2022. “Investir na defesa é investir na inovação, na tecnologia e no trabalho”, disse numa outra em 2023, e chegou mesmo a dizer em 2018 que “os gastos militares são gastos sociais porque criam empregos”. O que se questiona há anos é se o investimento na defesa é eficiente, quando o mundo precisa de investimento em questões mais importantes, como a transição energética, a inovação, etc., que poderiam gerar muito mais empregos do que o setor do armamento. E isto, apesar de que países como a Rússia terem se beneficiado da implementação de um sistema estatal de planejamento do desenvolvimento baseado na indústria bélica.
A outra opção é o braço financeiro da UE, o Banco Europeu de Investimento (BEI). A entidade recebeu pressões de um grande número de Estados-membros para abrir as suas portas ao financiamento de projetos de defesa transfronteiriços para certos tipos de armas, de acordo com os estatutos atuais.
A armadilha consiste em dois conceitos que alimentam, por igual, a mesma indústria: controle de fronteiras e tecnologias de dupla utilização (aquelas que podem ter uso civil). “Isso inclui drones e proteção de fronteiras.”
Outra iniciativa para financiar a guerra são os títulos de guerra, ou seja, a emissão de dívida por instituições europeias conjuntamente e apoiadas por todos os Estados-membros. O tema foi um dos debates sobre as decisões a serem tomadas caso Trump se torne presidente, entre as quais poderiam estar títulos com fundos russos congelados e colocar a taxa de juros como garantia. Aqui está em disputa a questão das despesas e das contas públicas que dizem respeito à modificação das regras fiscais europeias e do Protocolo sobre o déficit excessivo.
Com os tambores da guerra a ressoar nos ouvidos europeus e as regras orçamentais em debate para 2025, os investimentos na defesa poderiam ser excluídos do cálculo das contas públicas na hora de contabilizar o déficit. “Isto é pura criatividade contábel”, “Farão com que a dívida e as despesas acumuladas com a compra de armas não sejam computadas no déficit”, para que as rubricas orçamentais nunca serão alcançadas pelas medidas de austeridade.
Assim sendo, o distanciamento da Europa dos EUA já está acontecendo, e não será muito diferente, seja Trump ou Biden, porque a associação dos países ocidentais que nasceu depois da Segunda Guerra Mundial está enfraquecendo, e os negócios da indústria da Guerra, embora garantidos para os EUA, têm algumas questões em disputa. As guerras sempre foram um negócio para poucos. Não só quando as bombas e armas produzidas por estas empresas são lançadas e disparadas, a mensagem bélica alarmista se transforma em altas no mercado de ações e aumentos no valor dessas empresas e do patrimônio de seus acionistas.
A empresa alemã Rheinmentall é um exemplo claro disso. A empresa é fabricante de tanques Leopard, que não param de fluir dos países europeus para a Ucrânia, além de ser uma das maiores produtoras de munições de artilharia do mundo. Desde o final de fevereiro de 2022 até o presente, o preço da empresa mais do que quadriplicou, uma vez que o seu valor no mercado de ações passou de 5 bilhões de euros antes de Putin invadir a Ucrânia para 25 bilhões de euros atualmente.

Por trás dessas empresas estão os acionistas, onde os maiores investidores são os suspeitos de sempre. De acordo com o relatório ‘Financiar a Guerra. Financiar a Paz. Como o Mercado de Valores promove a paz num mundo cada vez mais conflitivo’, o principal investidor mundial em empresas de armas é o fundo de investimento Vanguard, com 92 bilhões de dólares. A State Street segue com 68 bilhões e a BlackRock completa o pódio com 67 bilhões investidos. O resto da lista: Capital Group, Bank of America, JP Morgan Chase, Citigroup, Wellington Management, Wells Fargo e Morgan Stanley.

Os 10 principais investidores europeus contribuíram em conjunto com 79 bilhões de dólares, ou seja, perto de 8% do total, e todos estão entre as 40 principais instituições financeiras que investem na indústria do armamento em nível mundial.

As grandes companhias de seguros, os fundos de investimento, os fundos soberanos, os fundos de pensões e os bancos apoiaram a indústria da defesa com mais de 959 bilhões de dólares através de diferentes formas de financiamento: concessão de empréstimos, detenção de títulos, participação em ações e subscrição de títulos. As ações representaram mais da metade do investimento total no setor (660 bilhões de dólares), enquanto os títulos de dívida representaram menos de 1% do total.
Não existem guerras inocentes, existem guerras com a participação ativa dos grandes atores mundiais. Às vezes, os países criam condições para que as empresas prosperem, ajudando alguns conflitos a progredir e isso ajuda a obter benefícios privados. Outras vezes, as partes privadas têm de colaborar, como em Gaza, para que os grandes investidores obtenham benefícios nos seus investimentos em empresas bélicas. As mortes, a destruição de infraestruturas, as migrações, não são uma questão pessoal, são apenas consequências não desejadas ou resultados colaterais de simples negócios.
