Diante de Biden, Alberto Fernández deu voz às demandas da América Latina

O presidente fez um duro discurso na Cúpula das Américas sobre desigualdade, pobreza e dívida externa. Reclamou dos países que os Estados Unidos não convidaram e criticou a OEA.

FONTE: El destape

Por Jonathan Heguier

Alberto Fernández.

O Presidente Alberto Fernández fez seu discurso na IX Cúpula das Américas, realizada em Los Angeles, Estados Unidos, e deu voz às demandas da região. Sua mensagem se concentrou na desigualdade e na pobreza que habitam a América. Criticou duramente a OEA e, na frente de Joe Biden, questionou o governo de Donald Trump, apontando que: “Os anos anteriores à sua chegada ao governo dos Estados Unidos foram marcados por uma política imensamente prejudicial para nossa região implantada pelo governo que o precedeu”.

Nesse sentido, falando diretamente com o atual presidente norte-americano afirmou: “É hora dessas políticas mudarem e os danos serem reparados” e o convidou a “abrir-se fraternalmente para favorecer interesses comuns”.

Ao iniciar seu discurso, Fernández criticou os Estados Unidos por não terem convidado Cuba, Venezuela e Nicarágua para a cúpula: “Quero começar estas palavras avaliando os esforços realizados na organização desta Nona Cúpula das Américas. Lamento não podermos estar presentes todos que deveríamos estar, neste ambiente tão propício ao debate”.

“Da periferia em que nos encontramos, a América Latina e o Caribe olham com dor o sofrimento que os povos irmãos suportam. Cuba sofre um bloqueio de mais de seis décadas imposto nos anos da ‘Guerra Fria’ e a Venezuela tolera outro enquanto que uma pandemia, que devasta a humanidade, arrasta com ela milhões de vidas”, disse Fernández. E continuou: “Com medidas desse tipo, procura-se impor condições aos governos, mas na realidade só prejudicam os povos. Definitivamente teríamos desejado outra Cúpula das Américas. O silêncio dos ausentes nos interpela”.

E encerrou com uma proposta: “Para que isso não aconteça novamente, gostaria de deixar claro, para o futuro, que o fato de ser o país anfitrião da Cúpula não confere a possibilidade de impor um ‘direito de admissão’ aos países membros do continente. O diálogo na diversidade é o melhor instrumento para promover a democracia, a modernização e a luta contra a desigualdade”.

Em relação à Organização dos Estados Americanos (OEA) liderada por Luis Almagro, Alberto afirmou: “A OEA foi usada como um gendarme que facilitou um golpe na Bolívia. Apropriaram-se da liderança do Banco Interamericano de Desenvolvimento que esteve historicamente nas mãos da América Latina. As ações de reaproximação com Cuba, mediadas pelo Papa Francisco, que representavam avanços alcançados pelo governo de Barack Obama, enquanto o senhor era vice-presidente, foram interrompidas”. E pediu abertamente a renúncia de Almagro: “Se a OEA quer ser respeitada e voltar a ser a plataforma política regional para a qual foi criada, deve ser reestruturada, removendo imediatamente aqueles que a dirigem”.

Da mesma forma, questionou o empréstimo que o FMI concedeu a Mauricio Macri: “A intervenção do governo Donald Trump no Fundo Monetário Internacional foi decisiva para facilitar o endividamento insustentável em favor de um governo argentino em declínio. O único propósito foi o de impedir o que acabou sendo o triunfo eleitoral de nossa força política. Todo o povo argentino sofre hoje por tal indecência”.

Fernández teve o cuidado de questionar em seu discurso uma das máximas do neoliberalismo: “Por que nos escolheram se não é para realizar medidas em benefício de toda a população e não de poucos? Não há teoria do derrame de riqueza que tenha funcionado. Já é hora de percebermos e agirmos de acordo”.

Dedicou também um parágrafo de tom peronista, no qual afirmou: “Devemos construir juntos, na unidade, um humanismo renovado, que, como ensina o Papa Francisco, começa pelo último, para chegar a todos. Unidos ou dominados. Unidos pela ‘casa comum’ ou dominados pela ganância econômica. Unidos pelo multilateralismo ou dominados pela polarização. Unidos pela democracia com inclusão social ou dominados pelo individualismo e miséria coletiva”.

Por outro lado, voltou a pedir pelas Malvinas: “A Argentina é um país pacífico. Continuamos reivindicando por via diplomática os direitos legítimos que temos sobre nossas Ilhas Malvinas. Continuamos confiando no diálogo. Após a tragédia da pandemia, observamos as guerras como o triunfo da insensibilidade humana”.

Para encerrar, Fernández, como presidente da CELAC, convidou formalmente Joe Biden para participar da próxima reunião plenária do organismo internacional. “Sonho que em uma América fraternalmente unida, nos comprometamos com o fato de que todos os seres humanos que habitam nosso continente têm direito ao pão, à terra, a um teto e ao trabalho decente”, foi sua mensagem final.

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