Manobras com o ouro: a AGN confirmou que o Banco Central perdeu 1 bilhão de dólares

09/10/2026│Um informe da Auditoria Geral da Nação revelou que as operações com derivativos financeiros sobre o metal geraram um saldo negativo pago em divisas, apesar da alta do preço internacional.

FONTE: Diario Contexto

Banco Central perde 1 bi em especulação com ouro soberano.
Santiago Bausilli, presidente do Banco Central e Luis Caputo, ministro de economía da Argentina

Um duro informe da Auditoria Geral da Nação (AGN) expôs que as operações financeiras implementadas pelo Banco Central da República Argentina (BCRA) com as reservas de ouro geraram um saldo desfavorável de US$ 1,023 bilhão. Embora, no aspecto formal, o órgão tenha concluído que as Demonstrações Contábeis (EECC) em 31 de dezembro de 2025 resultam razoáveis em seus termos técnicos sobre a situação patrimonial da entidade, o parecer deixou à mostra o elevado custo das transações executadas pelo organismo presidido por Santiago Bausili.

A AGN sustentou que, durante o exercício de 2025, a posse de ouro da autoridade monetária —incorporada originalmente durante as gestões de Alfonso Prat-Gay e Mercedes Marcó del Pont— gerou um ganho patrimonial bruto superior a 8 trilhões de pesos, um aumento impulsionado de forma exclusiva pela alta internacional do preço do metal.

No entanto, esse rendimento positivo ficou descompensado pela estratégia de engenharia financeira levada a cabo pela administração de Bausili. Sob o argumento de concretizar coberturas, o Central estruturou contratos de derivativos financeiros liquidáveis em dólares utilizando as reservas físicas de ouro como ativo subjacente.

De acordo com os registros contábeis, o saldo final desses instrumentos implicou uma perda de 1,5 trilhão de pesos (equivalentes a US$ 1,023 bilhão), gerando um custo liquidado diretamente em divisas netas. No fechamento do ano auditado, a entidade liquidou a totalidade das posições abertas por esse conceito.

A análise técnica formulada pelo órgão de controle sobre a tomada de decisões financeiras foi contundente. Em suas conclusões, a AGN precisou que “durante 2025 o BCRA realizou operações financeiras especulando com uma determinada trajetória para o preço internacional do ouro, errou o cálculo e perdeu US$ 1,023 bilhão, segundo consta dos registros contábeis”.

Ao mesmo tempo, o parecer advertiu sobre a dimensão e as implicações desse tipo de aplicação de risco. Nesse sentido, assinalou que “desde que se auditam as Demonstrações Contábeis do BCRA, nunca se havia utilizado essa magnitude de reservas físicas (ouro) para transações de risco”.

A réplica do Banco Central

Após a divulgação do contundente informe da AGN, o Banco Central saiu a difundir uma comunicação oficial na qual justificou seu agir. A entidade argumentou que a posição consolidada em ouro computou um resultado líquido positivo de US$ 2,505 bilhões durante 2025, alegando que a perda contábil registrada nos derivativos responde ao funcionamento inerente de uma cobertura: em momentos de valorização do ativo subjacente, a posição à vista registra ganhos, enquanto o instrumento de proteção assume um saldo negativo.

Paralelamente, a autoridade monetária buscou se defender sinalizando que essas operações fazem parte de uma política aplicada desde 2007. Além disso, a condução do BCRA questionou a abordagem da AGN, atribuindo seus apontamentos a “fins puramente políticos”.

O destino dos lingotes, sob exame específico

À margem dos saldos contábeis, o foco da fiscalização se concentra na transferência e localização real dos lingotes das reservas. A AGN confirmou que trabalha em uma auditoria específica focalizada na gestão e movimentação do metal para o exterior.

Por meio desse processo de fiscalização, o órgão prevê determinar os fundamentos das decisões de transferência, verificar as praças financeiras de destino e identificar se a operação reportou algum benefício concreto para o Estado nacional ou se redundou em vantagens para terceiros. O informe preliminar foi enviado ao Banco Central para a formulação de sua correspondente defesa.

Antecedentes: inconsistências informativas e questionamentos pelos traslados

Os reparos sobre a custódia do ouro vinham registrando antecedentes imediatos. Anteriormente, a condução do Banco Central encabeçada por Bausili havia dito no Senado que as auditorias vinculadas ao envio de ouro ao exterior entre 2023 e 2025 haviam concluído sem observações, informando que os ativos permaneciam depositados no Banco de Compensações Internacionais (BIS) na Suíça.

No entanto, a própria AGN havia desmentido essas declarações ao denunciar que o próprio BCRA lhe havia impedido o acesso a documentação indispensável sobre as transferências, impossibilitando verificar a rastreabilidade efetiva dos lingotes e levantando dúvidas sobre uma eventual transferência para dependências do Banco da Inglaterra.

As suspeitas haviam começado em meados de 2024, quando a difusão pública do movimento de carros-fortes para o Aeroporto Internacional de Ezeiza derivou em pedidos de informes por parte do sindicato La Bancaria para esclarecer despachos não consignados de lingotes para a Inglaterra.