Milei elogia ditadura de Pinochet no Chile e insiste que sofreu “golpe de Estado” em 2025

03/09/2028 – No Fórum de Madri, realizado em Santiago, o Presidente voltou a afirmar que seu governo sobreviveu no ano passado a uma ofensiva destinada a quebrar o equilíbrio fiscal e tirá-lo do poder. Ao mesmo tempo, reivindicou a derrubada de Salvador Allende e apresentou as décadas seguintes do país vizinho como um período de “estabilidade e crescimento”.

Por Pedro Lacour @pedrolacour
FONTE: El Diario AR

Javier Milei inaugurou nesta quinta-feira o V Encontro Regional do Fórum de Madri, em Santiago do Chile, com um discurso muito distante das sutilezas diplomáticas. O Presidente usou o palco da aliança conservadora para se vitimizar e agitou mais uma vez o fantasma da conspiração, afirmando que seu governo sobreviveu a uma tentativa de “golpe de Estado”. O mandatário chegou em um voo relâmpago que decolou no início da manhã de Buenos Aires, acompanhado por uma comitiva reduzida composta pela secretária-geral da Presidência, Karina Milei, e pelo chanceler Pablo Quirno.

Diante de uma plateia de líderes da direita mais radical, Milei recorreu a um roteiro de tons apocalípticos: “Mesmo naqueles territórios que acreditávamos ter conquistado, está o socialismo esperando que nos descuidemos para voltar ao poder.” Em seguida, e sem apresentar provas judiciais concretas, equiparou o debate legislativo a uma conspiração armada: “Sem ir mais longe, em 2025, na Argentina, tentaram um golpe de Estado; usaram o Congresso para tentar aprovar dezenas de leis que visavam romper o equilíbrio econômico, romper o equilíbrio fiscal, somado a isso com sete tentativas de impeachments. Além disso, também tentaram fazer isso pelas ruas.” Para justificar a conflituosidade social sob seu governo, o libertário apelou ainda para uma impactante encenação numérica em matéria migratória: “No ano passado, tivemos que deportar mais de 10 mil pessoas, e no que vai deste ano, 14 mil.”

Ao longo de sua exposição, Milei reduziu a complexa realidade geopolítica a uma batalha moral. “Estamos em uma batalha que nos excede a cada um de nós e a nossas nações. É uma batalha em nível global entre o Bem e o Mal”, sentenciou. Segundo sua própria régua, o “Bem” está encarnado por seu próprio setor — aqueles que compartilham “o respeito pela vida, a liberdade e a propriedade, pelo Bom e pelo Belo” — enquanto o “Mal” é um monstro difuso de mil cabeças, liderado por “a esquerda radical e o terrorismo”.

Nesse sentido, e em uma clara tentativa de polarizar e anular qualquer dissidência, lançou uma ameaça direta aos moderados: “A história julgará que lado escolhemos, e aquele que preferir ficar à margem, indiferente, saiba que isso é exatamente o que o Bando do Mal busca. Da minha parte, tenho claro por que luto. Pelas ideias da liberdade onde quer que seja e contra quem quer que seja.”

A visita fugaz de Milei a Santiago foi atravessada por um forte tom político. Antes de seu encontro com José Antonio Kast, o Presidente reivindicou o golpe de Estado de 1973, liderado por Augusto Pinochet, ao afirmar que, “após a derrubada do comunista Allende, o Chile entrou em um período de estabilidade e crescimento que se estendeu por mais de 40 anos”. O prato forte do dia, no entanto, foi o encontro bilateral no Palácio de La Moneda com seu par chileno, em meio à polêmica que envolve o consultor Fernando Cerimedo.

Javier Milei e seu par chileno José Antonio Kast no Palácio de La Moneda.

Perto do fim de sua intervenção nesta quinta-feira, Milei abandonou por um momento o tom de confrontação para passar à exortação e convocou os presentes a perseverar em uma batalha que apresentou como longa, mas possível de ser vencida. “Não nos deixemos desmotivar sob a ideia de que podemos fazer pouco, porque a diferença entre fazer pouco e não fazer nada é abissal”, afirmou. O encerramento recuperou imediatamente a lógica binária que atravessou todo o seu discurso: de um lado, aqueles que compartilham suas “crenças” e buscam tirar seus países da “decadência”; do outro, o “estatismo e o comunismo” como forças capazes de fazê-los “descarrilar”.

Sem tempo a perder, Milei embarcará em um retorno imediato à Argentina. Às 16h, gravará a mensagem que será exibida cinco horas depois em cadeia nacional. O roteiro será dedicado exclusivamente às Malvinas, uma causa que a Casa Rosada se apressou em colocar no centro do palco após detectar uma oportunidade inesperada em Washington: Donald Trump sugeriu que está disposto a rever a histórica posição de neutralidade dos Estados Unidos, e o Governo decidiu explorar politicamente esse sinal antes que ele perca força.