15/08/2026│O chanceler argentino Pablo Quirno e embaixador estadunidense Peter Lamelas assinaram o documento na segunda-feira, mas a Casa Rosada só confirmou a adesão três dias depois, quando a notícia já circulava nos Estados Unidos. Os novos questionamentos sobre o futuro das políticas de saúde sexual e reprodutiva.
FONTE: Perfil

Com absoluto hermetismo, a Argentina aderiu ao Consenso de Genebra, uma declaração provida impulsionada pelos Estados Unidos. O instrumento trata da saúde das mulheres e das meninas, mas tem um único objetivo específico: gerar incidência nos organismos multilaterais para rejeitar a legalização do aborto. O chanceler Pablo Quirno e o embaixador Peter Lamelas assinaram o documento na segunda-feira, dia 10. No entanto, o governo só publicou o anúncio três dias depois, após a informação ter vazado na imprensa americana e depois que o PERFIL insistiu na consulta.
Em junho, os Estados Unidos assumiram a secretaria da Declaração de Consenso de Genebra sobre a Promoção da Saúde da Mulher e o Fortalecimento da Família, em substituição à Hungria. Não se trata de um instrumento vinculante e a adesão não implica assumir compromissos. No entanto, em termos libertários, funciona como um baluarte para a batalha cultural, já que impulsiona os países signatários a agir em bloco no plano internacional. A adesão da Argentina abre outro questionamento: seria ela a antesala de uma discussão sobre o regime vigente de interrupção voluntária da gravidez?
Quirno anunciou a assinatura sem mencionar a palavra aborto e se referiu apenas à “proteção da vida humana”. A opacidade com que se avançou abre um amplo leque de hipóteses, que vão desde a mudança de estratégia dos conservadores (“celestes”) até a consciência, dentro do governo Milei, sobre a falta de acordos necessários para avançar em uma agenda reacionária.
Hermetismo e opacidade
Na segunda-feira, dia 10, a jornalista Elizabeth Troutman Mitchell, credenciada na Casa Branca, publicou no portal de notícias conservador Daily Signal que a Argentina havia assinado a declaração. O artigo incluía citações textuais de Kozma celebrando a assinatura e a “amizade” entre Argentina e Estados Unidos.
Nos sites oficiais do governo e nas contas dos funcionários argentinos não havia nenhuma menção ao assunto. Apenas o ministro da Saúde, Mario Lugones, havia publicado em suas redes na quarta-feira, dia 12, sobre um encontro com Kozma em que se falou sobre alimentação saudável.
O PERFIL entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores para confirmar a informação. As respostas foram evasivas. Da pasta da Saúde, encaminharam a consulta para a área de Quirno. Na Casa Rosada, a posição foi similar: “Só o Itamaraty pode confirmar”, disseram. Da Embaixada dos Estados Unidos, responderam que a pergunta deveria ser direcionada ao governo argentino.
Por volta das 20h, finalmente, a adesão ao Consenso de Genebra se tornou pública com um post no X de Quirno e outro de Lamelas. Quando este veículo perguntou sobre a demora na comunicação, surgiram duas versões. “Houve vários ajustes no texto (wording) nos últimos dias”, respondeu uma fonte da chancelaria argentina.

Algo semelhante aconteceu em outros países. No Brasil, Jair Bolsonaro aderiu e depois Lula da Silva impulsionou a saída. Na Colômbia, a declaração foi assinada por Iván Duque, mas pouco depois chegou Gustavo Petro e o país se retirou. Atualmente, quem mantém o apoio ao Consenso de Genebra na região são Haiti, Guatemala e Paraguai.
O retorno de Trump à Casa Branca não significou apenas o retorno dos Estados Unidos à coalizão, mas também que o país passou a liderá-la. E, como era de se esperar na administração de Milei, a Argentina acaba de se incorporar.

