A pobreza de Milei é uma fantasia estatística

01/04/2026│Apesar da comemoração oficial, indicadores sociais e trabalhistas mostram deterioração das condições de vida; metodologia do INDEC é questionada por especialistas.

Por Alfredo Saiat

Fonte: El Destape

A redução da pobreza celebrada pelo governo de Javier Milei não encontra respaldo na realidade social argentina, segundo análise publicada nesta quarta-feira (1º) pelo jornal El Destape. Em artigo assinado por Alfredo Zaiat, o periódico sustenta que os números oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) são fruto de manipulações metodológicas que distorcem a real dimensão da crise social no país.

A reportagem reúne dados oficiais e de consultorias privadas que apontam uma deterioração generalizada das condições de vida após 28 meses de gestão liberal-libertária. Entre os principais indicadores negativos estão o aumento do desemprego e do pluriemprego, a expansão da informalidade e da precarização trabalhista, a perda do poder aquisitivo dos salários, a retração do consumo e o crescimento da parcela do orçamento familiar comprometida com serviços essenciais.

“Com este panorama geral negativo, resulta difícil sustentar, com um mínimo de rigor intelectual, que o ciclo liberal-libertário melhorou os indicadores de pobreza e indigência”, afirma Zaiat.

Metodologia do INDEC é alvo de críticas

Segundo o artigo, para chegar à conclusão de que houve queda da pobreza, o governo precisou validar duas distorções decisivas na medição. A primeira diz respeito ao índice de preços utilizado: o cálculo ainda emprega uma cesta de bens e serviços baseada na estrutura de gastos dos lares de 2004/2005, ignorando o IPC atualizado com a cesta de 2017/2018.

A segunda distorção apontada é a alteração na metodologia de coleta de rendimentos da Pesquisa Permanente de Domicílios. A mudança teria ampliado artificialmente a captação de renda, incluindo fontes antes subdeclaradas ou omitidas, o que contribui para sobrerrepresentar a queda da pobreza.

“A baixa da pobreza que exibe o INDEC não pode ser lida como o reflexo de uma melhora real nas condições de vida, mas sim como o resultado de uma medição distorcida por uma cesta velha e por mudanças metodológicas que sobrerrepresentam essa queda”, escreve o autor.

O artigo recorda que as interferências nas estatísticas oficiais levaram à renúncia de Marco Lavagna, então responsável pelo órgão, quando o governo teria agido para bloquear a publicação do novo IPC, que certamente registraria uma alta superior à atual.

Programas sociais perdem fôlego

Levantamento do Observatório da Dívida Social Argentina da Universidade Católica Argentina (ODSA-UCA), citado no artigo, mostra que a cobertura da Asignación Universal por Hijo (AUH) e do Cartão Alimentar vem caindo há cinco meses. Em fevereiro de 2026, esses programas cobriam entre 39% e 62% da cesta básica alimentar, e entre 18% e 28% da cesta básica total — porcentagens que, segundo os pesquisadores Fernando Gallegos Piderit e Alejo Giannecchini, seriam de 6 a 10 pontos percentuais menores caso se utilizasse a cesta atualizada de 2017/2018.

A mesma trajetória descendente atinge os aposentados. O haber mínimo jubilatório, que em fevereiro somava 359.254 pesos sem bônus e 429.254 pesos com o bônus compensatório de 70.000 pesos, registrou queda real de 8,1% em relação a junho de 2024, quando atingiu seu ponto mais alto após o pico inflacionário. O bônus, congelado desde março daquele ano, vem perdendo peso no rendimento total.

Dispositivo midiático e festejo oficial

O artigo critica o que chama de “festejo desmedido de Milei e companhia” diante dos números, acolhido acriticamente pelo “dispositivo da direita”. Zaiat conclui que, diante do avanço da precarização, da perda de poder de compra das transferências de renda e da retração do consumo, a melhora social sugerida pelos números oficiais não descreve a realidade cotidiana.

“A política econômica e social liberal-libertária, na realidade, está golpeando o bem-estar geral e afundando na miséria um número cada vez maior de pessoas”, finaliza.

Matéria completa em: El Destape