Surgem os riscos de atar a Argentina à guerra dos Estados Unidos

07/03/2026 | O presidente Javier Milei assinou ontem um novo pacto com Donald Trump. Mas essa proximidade não evitará o aumento dos preços nem a possibilidade de uma recessão, como apontam bancos internacionais e o Fundo Monetário. Se o conflito no Golfo Pérsico se estender, não há Escudo que proteja a Argentina.

Por Randy Stagnaro @randystagnaro

FONTE: Tiempo Argentino

A Argentina está em guerra com o Irã? Se considerarmos as declarações e ações do presidente Javier Milei e de seu gabinete, a resposta é um claro sim.

Milei aspira que o forte alinhamento que colocou em prática com os Estados Unidos se transforme em uma política de Estado que resulte numa aliança estratégica, ou seja, num acordo que ate os interesses mais essenciais da Argentina aos dos Estados Unidos. Com o peso relativo de ambos os estados em jogo, é claro que prevalecerá a agenda que emergir de Washington acima de qualquer consideração vinda de Buenos Aires.

Isso já está acontecendo agora. Após a assinatura do acordo comercial que obriga a Argentina e beneficia os EUA, ontem o presidente argentino assinou uma iniciativa de Donald Trump, o “Escudo das Américas”, que militariza a segurança interna dos países em nome da luta contra o narcotráfico.

A assinatura deste documento foi a encenação de outro compromisso prévio do qual foi protagonista o ministro da Defesa argentino, o general da ativa Carlos Presti, que integrou o país à “coalizão de segurança hemisférica contra o narcoterrorismo“.

Ambas as iniciativas fazem parte de uma linha de ação política que foi delineada na Estratégia de Segurança Nacional trumpista de dezembro passado e na posterior Estratégia de Defesa Nacional, de dois meses atrás.

É preciso lembrar que o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi sequestrado pelas forças armadas dos EUA para enfrentar acusações na justiça norte-americana por narcotráfico e lavagem de dinheiro.

Surgem os riscos de atar a Argentina à guerra dos Estados Unidos

O acordo estratégico com os EUA que Milei delineou em seu discurso de 1º de março tem um foco concreto: a entrega das responsabilidades do controle das águas argentinas no Atlântico Sul a Washington. Assim como com o “Escudo das Américas”, a entrega do Atlântico Sul visa enfrentar a China. E a China também é, no caso dos EUA, o objetivo final da investida contra o Irã, que Milei saudou fervorosamente.

“No ataque ao Irã, confluíram os interesses dos Estados Unidos com os de Israel, mas são de natureza diferente. Enquanto para Israel se trata de um problema existencial, para os Estados Unidos trata-se de atingir a China”, explica Víctor Bronstein, especialista em temas de energia e diretor do Centro de Estudos de Energia, Política e Sociedade (Ceepys).

O Irã é um aliado muito importante da China, que comprometeu investimentos em infraestrutura de 500 bilhões de dólares há uma década. “A China considera o Irã um aliado importante em sua estratégia da rota da seda para chegar ao Ocidente. O Irã é uma escala importante dessa rota”, acrescenta Bronstein.

Frágil, depauperado e esfrangalhado

Milei pretende levar a Argentina a jogar o xadrez geopolítico das grandes potências com uma economia que não pode sobreviver sem o resgate de um salvador a cada seis meses. Primeiro foi o Fundo Monetário, depois o Tesouro dos Estados Unidos.

Essa fragilidade financeira estrutural, marcada por uma dívida pública impagável e uma atividade produtiva em ruínas, tornou-se um sinal de alerta para os grandes bancos de investimento. Esta semana, foram divulgados os sucessivos relatórios de seis dessas instituições que destacaram que a Argentina era, junto com a Turquia, o país mais frágil para enfrentar a conjuntura aberta com a guerra no Irã.

Surgem os riscos de atar a Argentina à guerra dos Estados Unidos

O Fundo Monetário Internacional também se manifestou da mesma forma em um documento não oficial esta semana. Sem mencionar a Argentina, o texto assinalou que “É importante que as economias de mercados emergentes e em desenvolvimento fortaleçam ainda mais sua resiliência, inclusive mediante a criação de níveis adequados de reservas cambiais. Para isso, é necessário esforçar-se para superar a resistência interna à acumulação de reservas”.

Parece um parágrafo dedicado a Milei e seu ministro da Economia, Luis Caputo. Acrescenta no marco da guerra no Oriente Médio: “Os países com reservas muito baixas são vistos como especialmente arriscados e têm poucas opções se os mercados se voltarem contra eles, como na fábula de Esopo sobre a cigarra que cantava e dançava no verão enquanto a formiga armazenava comida para o inverno”.

Claramente, Milei e Caputo não gostarão de ser identificados com as cantantes cigarras, mas no impiedoso mundo das finanças, o fraco não joga.

Combustíveis e algo mais

Há mais problemas que o mundo e a Argentina, com essas frágeis costas financeiras, enfrentarão se a guerra se prolongar apenas duas ou três semanas mais.

Segundo o International Institute of Finance (IIF), um centro de estudos muito ligado aos grandes bancos de investimento, destacou os efeitos mais imediatos e concretos como a alta dos combustíveis provocada pelo aumento do preço do petróleo, gerado, por sua vez, pela queda do fluxo de petróleo cru das costas do Golfo Pérsico para o resto do mundo. A inflação e um cenário de recessão global surgem como pano de fundo da atual catástrofe aberta com o ataque dos EUA e Israel ao Irã.

Ao lado disso, a possibilidade de que as petroleiras que atuam na Argentina se enriqueçam com o elevado preço do petróleo soa a mesquinho.

“A Argentina, como qualquer produtor de petróleo com capacidade de exportação, será beneficiada, assim como as petroleiras que atuam neste território, pelo aumento do preço do petróleo”, observa Bronstein. O fator tempo desempenhará um papel central. “Isso dependerá de quanto tempo durar o conflito: se durar duas ou três semanas, talvez não afete tanto, mas se prolongar, como tudo parece indicar, começará a afetar o custo dos combustíveis”.

Um conflito sustentado implicaria que continuará fechada a passagem de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, por onde circula entre 20% e 25% do petróleo mundial. A falta de petróleo do golfo Pérsico, que nestes dias é suprida com o crude acumulado em depósitos, resultaria numa alta do preço dos combustíveis. “Isso vai gerar uma situação inflacionária porque qualquer mercadoria, qualquer produto, tem petróleo por trás, sempre há transporte e 95% do transporte global, e na Argentina também, é feito através de derivados do petróleo. Se os combustíveis aumentarem, isso vai gerar um impacto inflacionário com efeito nos preços internos. Será um fenômeno global que pode levar até mesmo a fenômenos de recessão como ocorreu durante a década de 70 do século passado”.

Para os trabalhadores argentinos, apresenta-se a necessidade de reivindicar um limite para esse aumento de preços. Como em outras oportunidades, trata-se de uma dicotomia entre os lucros das petroleiras e uma redução do poder aquisitivo, já golpeado por dois anos de mileísmo.

Contudo, existe um problema maior que deveria ser amplamente debatido: se o conflito do Irã se estender no tempo, a falta de estratégia política de Trump para a guerra resultará numa crise de expectativas e confiança. A possibilidade de um colapso dos mercados é um fantasma que percorre as principais praças financeiras. Os tremores já se sentem.