Outra mentira de Milei desmascarada: a pobreza também está mal medida pelo INDEC

05/12/2025│Um novo frente de tempestade se abate sobre as estatísticas oficiais do governo de Javier Milei. O Centro de Estudos Direito ao Futuro (CEDEF) publicou um informe devastador que questiona a recente queda da pobreza anunciada pelo Indec. Segundo o estudo, se fossem utilizados os dados reais de salários e aposentadorias que constam nos registros oficiais, a pobreza não teria caído, mas sim aumentado cerca de 9% no número de pessoas entre o primeiro semestre de 2023 e o mesmo período de 2025.

O estudo aponta para uma fragilidade metodológica: os rendimentos captados pela Pesquisa Permanente de Domicílios (EPH) —o instrumento com que se mede a pobreza— mostram aumentos muito superiores aos que refletem as fontes oficiais de dados salariais e previdenciários. Esta discrepância não é um detalhe técnico menor: implica que os 2,3 milhões de pessoas que supostamente deixaram de ser pobres segundo a EPH poderiam ser, em grande medida, uma ilusão estatística.

O informe do CEDEF chega em um momento de forte controvérsia em torno das estatísticas oficiais, após a renúncia de Marcos Lavagna ao Indec, produto das pressões presidenciais para que postergasse a atualização do IPC. Ao evidente “truque” da inflação e à manipulação estatística de ocupação e renda via AUH (Auxílio Universal por Filho) denunciada em seu momento pela UCA, soma-se agora a alteração dos números da pobreza, um dado que resulta vital para a narrativa oficial.

A paradoxo dos números

Os últimos resultados da EPH mostram uma melhora aparentemente “espetacular”, nas palavras de Javier Milei. Segundo esses dados, a pobreza entre aposentados se reduziu 74%, entre funcionários públicos 43%, entre assalariados registrados 37% e entre trabalhadores não registrados 21%. Segundo essa narrativa, a incidência total da pobreza teria baixado de 40% para 32% da população, equivalente a oito pontos percentuais a menos.

O problema surge quando se cruzam esses resultados com outros registros Oficiais. Segundo a EPH, os trabalhadores registrados do setor privado tiveram um aumento real de rendimentos próximo a 12% entre o primeiro semestre de 2023 e 2025. No entanto, o Sistema Integrado Previdenciário Argentino (SIPA) mostra apenas um crescimento real de 1%, enquanto o índice oficial de salários do setor privado registrado exibe inclusive uma queda de 2,3%.

A brecha é ainda mais dramática no setor público. Enquanto a EPH reflete um aumento real de 3%, as estatísticas salariais oficiais mostram uma contração superior a 18%. No caso dos aposentados, a pesquisa registra uma melhora real próxima a 20%, um comportamento que não resulta consistente com a evolução da fórmula de mobilidade previdenciária vigente.

A simulação que muda tudo

Para avaliar o que aconteceria se fossem usados os dados reais em vez dos declarados na pesquisa, o CEDEF realizou um exercício de simulação. Tomaram os microdados do primeiro semestre de 2023 e atualizaram os rendimentos trabalhistas utilizando exclusivamente a evolução observada nas fontes administrativas: o SIPA para trabalhadores privados registrados, as estatísticas oficiais de salários públicos e a mobilidade previdenciária para aposentados.

O resultado inverte completamente a narrativa oficial. Sob este cenário realista, a pobreza não se reduz, mas aumenta cerca de 9% no número de pessoas. A incidência alcançaria 44% dos indivíduos, três pontos percentuais a mais que no primeiro semestre de 2023. Em outras palavras, haveria mais pobres, não menos.

Por que estas discrepâncias? As pesquisas como a EPH dependem do que as pessoas respondem em entrevistas. Podem existir erros de memória, subdeclaração ou superdeclaração de rendimentos, e problemas de cobertura quando certos domicílios não respondem ou não estão bem representados. Estes problemas tendem a se agravar em contextos de alta inflação, onde as variações mensais de rendimentos são significativas e mais difíceis de recordar com precisão.

Os registros administrativos, em contraste, costumam ser considerados mais confiáveis porque refletem contribuições e remunerações efetivas, com controles e auditorias. Se a EPH não reflete corretamente quanto variaram os rendimentos, então tampouco pode refletir corretamente quanto variou a pobreza.

Uma cesta desatualizada

O informe do CEDEF identifica um segundo problema metodológico que contribui para subestimar a pobreza oficial. A redução da pobreza também foi reforçada por uma queda real da Cesta Básica Total (CBT) de entre 5% e 6% segundo a região, o que barateou o limiar para ser considerado pobre. Mas esta “liquidação” do custo de vida responde ao que o estudo qualifica como problemas metodológicos graves.

A CBT oficial segue sendo calculada com ponderadores da Pesquisa Nacional de Gastos dos Domicílios realizada em 2004/05. Ou seja, assume-se que os argentinos de 2025 consomem da mesma maneira que há mais de vinte anos, ignorando completamente as mudanças nos preços relativos e nos padrões de consumo ocorridas nas últimas duas décadas.

Um estudo citado pelo CEDEF e realizado pela consultoria Equilibra adverte que esta desatualização subestima sistematicamente a verdadeira linha de pobreza no contexto atual, onde os preços relativos de alimentos, serviços e outros componentes da cesta mudaram drasticamente.

Para o governo nacional, os números da pobreza são cruciais em sua narrativa de “estabilização” econômica após o choque inicial. A administração de Milei defendeu que, após o ajuste mais duro, a economia começou a se recuperar e isso se reflete na redução da pobreza. O trabalho do CEDEF desmonta essa narrativa e sugere que a melhora é em grande medida artificial, produto de problemas de medição antes que de uma recuperação real dos rendimentos.