Milei promete reforma trabalhista depois das eleições: as lições da reforma no Brasil

17/10/2025│Tanto o ministro da economia, Luis Caputo, quanto o próprio Milei anunciaram reformas das leis trabalhistas argentinas que não favorecem a contratação por serem “anacrônicas” segundo eles. Christian Salles lembra o que aconteceu com os trabalhadores brasileiros depois da reforma de Temer que “modernizou” a CLT.

Por Cristian Salles

Quando Michel Temer sancionou, em 2017, a reforma trabalhista sob o argumento de “modernizar as relações de trabalho” e “gerar empregos”, o Brasil vivia um momento de profunda desarticulação política e social. O golpe parlamentar de 2016, que depôs uma presidenta eleita sem crime de responsabilidade, abriu caminho para uma agenda econômica regressiva, alinhada aos interesses do grande empresariado e do capital financeiro internacional. A promessa era simples — e enganosa: flexibilizar direitos seria o caminho para aumentar a competitividade e reduzir o desemprego.

O resultado, no entanto, foi o oposto. A reforma que autorizou a negociação individual acima do legislado desestruturou o equilíbrio histórico entre capital e trabalho. Ao permitir que acordos diretos prevalecessem sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o Estado retirou do trabalhador sua proteção mínima, deixando-o diante do empregador em condições de desigualdade absoluta. O que se chamou de “liberdade de negociação” traduziu-se, na prática, em liberdade para explorar — a velha retórica liberal revestida de tecnocracia.

Os efeitos concretos logo se fizeram sentir: multiplicaram-se os contratos intermitentes, as jornadas parciais, a pejotização forçada e o falso empreendedorismo. Milhões de brasileiros tornaram-se “prestadores de serviço” de si mesmos, arcando com tributos, sem férias, sem 13º e sem garantia de renda mínima. A precarização se apresentou como escolha, quando era apenas a nova forma da coerção.

E o mais trágico — e sintomático — é que boa parte da própria classe trabalhadora apoiou o discurso da “modernização”. O pobre de direita, convencido de que partilhava dos interesses do patrão, aplaudiu Temer acreditando estar defendendo a economia nacional. Mal percebeu que, ao aplaudir o corte de direitos, assinava a sentença de sua própria vulnerabilidade. Tornou-se, ele mesmo, vítima do processo que ajudou a legitimar: perdeu o poder de compra, perdeu estabilidade, perdeu previdência — e, em muitos casos, perdeu até a identidade de trabalhador, substituída pela ilusão do “empreendedor de aplicativo”.

A reforma trabalhista de Temer não reformou o trabalho: reformou o trabalhador. Transformou o cidadão de direitos em unidade produtiva descartável, deslocando o eixo da política para a lógica do mercado. O Estado, que antes arbitrava conflitos e protegia o elo mais fraco, passou a atuar como mediador do lucro.

Hoje, quase uma década depois, o saldo é claro: não houve aumento estrutural de empregos, não houve melhora de renda, não houve competitividade. Houve apenas um rebaixamento coletivo da dignidade do trabalho, legitimado por um discurso que confundiu modernidade com submissão. O capitalismo tardio, que já havia capturado o tempo e o corpo, agora capturou também a mente — a mente do trabalhador que acredita ser livre justamente quando já não tem o que negociar.