28/11/2024 | Milei ameaça sair do Mercosul colocando em risco milhares de empresas que vendem seus produtos para o Brasil, principal parceiro comercial da Argentina.
Por Sebastian Premici
FONTE: El destape

Javier Milei brinca com fogo. O Governo pretende avançar com a possibilidade de assinar acordos comerciais fora do Mercosul e agita uma saída prematura do bloco. Qualquer movimento nesse sentido não seria custoso apenas para o Estado, mas para um número significativo de grandes e pequenas empresas que mantêm fluxo comercial com os países do bloco. Entre janeiro e outubro, para citar apenas um exemplo, as exportações para o Brasil representaram quase 17% do total das vendas ao exterior, colocando o país vizinho como principal parceiro comercial. Seguiram-se a China, o Chile e, em quarto lugar, os Estados Unidos.
Uma ruptura diplomática com o Mercosul derrubaria um conjunto de acordos comerciais, produtivos, culturais e até educacionais que foram assinados durante os últimos 33 anos. “Não é tão fácil desencadear processos de integração que foram aprovados nas últimas três décadas. Há um risco muito grande do ponto de vista comercial porque cairia um conjunto de posições tarifárias estabelecidas com o nosso principal parceiro comercial, que é o Brasil”, disse Eduardo Sigal, ex-subsecretário de Integração Regional da chancelaria argentina durante o governo de Cristina Kirchner.
Nos primeiros dez meses do ano, as exportações para o bloco Mercosul totalizaram 14,05 bilhões de dólares. O comércio total com esse bloco concentrou 21,3% do total das vendas ao exterior e 30,5% das compras. O principal país receptor das exportações locais foi o Brasil, que com 11,12 bilhões de dólares absorveu 79,1% das exportações para a região.
“A Argentina e o Brasil mantêm um esquema de preferências tarifárias, que poderá ser perdido se o Mercosul for abandonado. Então, eu me pergunto, o que vai acontecer com as fábricas que produzem caixas de câmbios na Argentina para carros que acabam sendo montados no Brasil. Exportamos valor agregado para o Brasil quando o que se exporta para outros países é apenas matéria-prima. Se essas preferências se perderem, muitas empresas entrarão numa situação de crise”, alertou Sigal.
O que pensarão as empresas norte-americanas que produzem no país e exportam para o Brasil? Será que outro tiro no pé de Milei se aproxima caso ele avance com sua ideia de se emancipar do Mercosul?
“A ideia deste governo é fazer, supostamente, uma redução de tarifas para melhorar a competitividade, mas tudo isso acontece quando os custos aumentam todos os meses nas nossas fábricas. Tudo é muito contraditório”, disse Daniel Rosato, presidente da associação de Industriais Pequenos e Médios da Argentina, em diálogo com El Destape.
Na opinião desse industrial, o governo deveria fazer o oposto de sua ideia de desmantelar o Mercosul, ou seja, mergulhar em toda uma série de novos acordos que se baseiem em trocas com valor agregado, um mundo totalmente desconhecido do ecossistema Milei .
Uma saída do Mercosul poderia impactar tanto as grandes empresas como as PME como uma bomba de neutrões. Durante o mês de outubro, as principais exportações para o Mercosul foram veículos para transporte de pessoas, derivados de petróleo e trigo. Esses produtos concentraram 44,7% das exportações para o Mercosul, segundo estatísticas do Indec.
A atividade das PME industriais está em crise como consequência direta do programa econômico da administração Milei. Para Rosato, se o Governo continuar no caminho de desacreditar as indústrias transformadoras que agregam valor no mercado interno, bem como aquelas que fazem parte de um processo de integração regional com as suas exportações para o Mercosul, muitas empresas poderão desaparecer a partir de 2025. “Poderiam ser 25 mil PME [a desaparecer], 5% do total de empresas do setor”, concluiu Rosato.
