23/10/2023│Massa conseguiu 15 pontos a mais do que nas primárias (PASO) enquanto Milei estagnou e Bullirch afundou. O candidato presidencial pela Unión por la Patria proclamou o “fim do divisão” dos argentinos e, para o segundo turno, propõe “unidade nacional”, enquanto Milei já lançou o convite ao Juntos por el Cambio.
FONTE: Política argentina

No que se configura como uma recuperação histórica de 15 pontos percentuais e reconfiguração de sua figura, o candidato presidencial da Unión por la Patria (UP), Sergio Massa, venceu o primeiro turno eleitoral por mais de 6% sobre Javier Milei, o candidato de La Libertad Avanza que se estagnou, e mais de 13 pontos acima de Patricia Bullirch, do Juntos por el Cambio (JxC), que afundou.
Com 98,51% das mesas apuradas, Massa somou 36,68% dos votos e Milei 29,98%. Patricia Bullrich, por sua vez, atingiu 23,83%; Juan Schiaretti, do Hacemos por Nuestro País, alcançou 6,78%; e Myriam Bregman, da Frente de Izquierda y los Trabajadores, caiu para 2,70%.
Isto significa que quase 10 milhões de cidadãos argentinos votaram no candidato da UP e cerca de 7,8 milhões em Milei. Bullrich, ex-ministra de Mauricio Macri, foi votada por 6,2 milhões de pessoas.
Ficou clara a diferença entre os discursos e o que certamente será o palco da campanha para o segundo turno entre Massa e Milei. “A divisão [dos argentinos] morreu, começa uma nova etapa”, proclamou o candidato da UP como mensagem quase central, ao mesmo tempo que convocou quase todos os sectores, exceto o libertário e o PRO, para um eventual governo de “unidade nacional” e pediu à militância peronista para militar com “amor pela Argentina, diante do ódio”.
A contradição ficou extremamente marcada com as mensagens de Milei e Bullrich, que coincidiram num eixo: o anti-Kirchnerismo.
Massa não perdeu tempo e começou ontem à noite a buscar os votos necessários, que se entende serem da esquerda, do peronismo de Córdoba, dos radicais, até dos eleitores da Coalizão Cívica de Elisa Carrió, e de setores do peronismo que compõe o JxC, mas também nos mais desencantados: aqueles que votaram em branco ou não foram votar.
“Digo a todos eles que farei o maior esforço para ganhar a sua confiança”, disse Massa e prometeu: “Muitos dos que votaram em nós são os que mais sofrem, não vou decepcioná-los”.
Milei também iniciou sua campanha ontem à noite, com o objetivo claro de votos, mas com amplitude política zero: neste domingo ele pediu uma “revolução liberal” em novembro com um discurso cheio de acenos via lugares comuns para Juntos por el Cambio para o segundo turno e até com parabéns a Jorge Macri, vencedor na cidade de Buenos Aires.

“A campanha fez com que muitos de nós que queremos mudanças nos sentíssemos brigados. Venho fazer uma ‘tabula rasa’, embaralhar e dar novamente as cartas com o objetivo de acabar com o kirchnerismo. Todos nós que queremos mudanças, temos que trabalhar juntos”, afirmou Milei sem ficar vermelho, que desta forma apelou para conquistar os votos de JxC para o segundo turno em 19 de novembro.
Desta forma, o candidato buscou uma aproximação com a outra coalizão de oposição, e parabenizou o candidato a chefe do Governo de Buenos Aires Macri e o governador eleito de Entre Ríos, Rogélio Frigério, ambos de Juntos por el Cambio.

OS RESULTADOS: RACIONALIDADE, ESPANTO, ORGANICIDADE
Embora seja cedo, à primeira vista a recuperação de Massa vem acompanhada de um apelo à racionalidade política dos cidadãos mais necessitados, que teve sucesso como mensagem de campanha e ao horror da irracionalidade expressa em projetos específicos da contraparte [Milei], bem como o notável aumento da participação popular e da organicidade do peronismo que recuperou municípios e províncias, além da transferência de votos da fabulosa reeleição do governador Axel Kicillof na província de Buenos Aires.
“Muitos dos que votaram em mim são os que mais sofrem”, disse ontem à noite o ministro da Economia, já conhecidos os resultados. Não foi o único fator, já que o próprio Milei atuou ao lado desse elemento citado por Massa.
O candidato libertário expressou ideias que justificaram a eleição dos mais necessitados, ou de parte deles, com conceitos como a justificação da ditadura militar, os ataques ao Papa Francisco, a privatização das ferrovias e a YPF [empresa petroleira estatal argentina] com Vaca Muerta incluídos, o aumento excessivo do transporte público através da eliminação de subsídios, entre outros.
Nas últimas semanas, os seus candidatos também “surfaram” na sua onda irracional, com iniciativas malucas como a renúncia à paternidade por parte dos homens ou a privatização dos mares e das baleias para evitar a extinção como política ambiental, sem falar das iniciativas anteriores à liberação do mercado de venda de órgãos e outro para a venda de crianças “não agora, como um debate futuro”.
Massa fez exatamente o contrário: pediu mais uma vez à militância “dupla humildade” e que não respondesse aos ataques que, nas redes sociais, já eram mal vistos por parte de eleitores decepcionados da oposição. Reforçou que será o presidente do trabalho e da segurança. Em contraste com Milei, que renega de seus pais, Massa subiu ao palco do ato à sua família e a do seu companheiro de chapa, Agustín Rossi, com a metáfora de “Argentina uma grande família”, e reivindicou direitos sobre as Ilhas Malvinas e disse que esperava receber o Papa Francisco como presidente em 2024.
A estrutura partidária do peronismo também teve forte atuação, agora com papel fundamental diferente do desempenho nas eleições primárias (PASO) em agosto. O peronismo recuperou oito províncias nas quais havia perdido nas primárias e em outras, embora não tenha vencido, reduziu a distância das derrotas.
De fato, venceu em províncias com administração radical, como Corrientes, ou com forças provinciais, como Río Negro, e conseguiu superar dolorosas derrotas nas primárias como as de Tucumán, La Rioja, La Pampa, Santa Cruz e Tierra del Fuego.

E, finalmente, o fator Axel Kicillof e sua reeleição esmagadora deixam-no com uma parte importante da vitória do Unión po la Patria. Manter o distrito mais importante da Argentina foi estratégico e alcançar uma distância de cerca de 20 pontos sobre o seu concorrente mais imediato, Néstor Grindetti, ainda mais.
“Esta vitória nos dá força, mas a campanha não terminou na província de Buenos Aires. A campanha termina quando Massa for o próximo presidente”, alertou Kicillof, antes de destacar o “compromisso de Massa com a produção, infraestrutura, distribuição de renda e melhoria de salários” para combater a inflação.
Apesar de tudo e de uma recuperação milagrosa, não houve vitória para ninguém no primeiro turno e a jornada até o dia 19 de novembro é muito longa e as possibilidades são quase ilimitadas.
