Uma derrota com gosto de vitória

A Frente de Todos, aliança no governo da Argentina, foi derrotada nas eleições parlamentarias do dia 14. Porém, conseguiu se sobrepor a uma derrota muito maior nas eleições primárias de setembro e evitar ficar em minoria no parlamento.

Clima de festa na Frente de Todos contrasta com a tensão na reunião de Juntos por el Cambio após as eleições.

Na noite de domingo 14, após se conhecerem os resultados eleitorais, apesar da vitória, caras amarguradas podiam ser vistas nos candidatos opositores e jornalistas afins, o que contrastava com a alegria nos diferentes locais partidários da aliança oficialista Frente de Todos, derrotada nas urnas.

 A chave dessa “vitória com sabor de derrota” (ou derrota com sabor de vitória), está nas expectativas que tinha a oposição de “acabar com o kirchnerismo”, obter a maioria na câmara de deputados para exigir sua presidência e instalar-se, desse modo, na linha de sucessão presidencial.

Por volta das 10h do domingo, o ex-presidente Maurício Macri falava em “transição ordenada”, dando por terminado o governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner. A aliança opositora Juntos por el Cambio esperava ampliar a diferença obtida na eleições primárias em setembro entusiasmada em sua própria retórica política e na maciça campanha de desprestígio do governo realizada pela imprensa hegemônica.  

Porém, o governo argentino e a Frente de Todos comemoraram o resultado que, embora signifique uma derrota de 8 pontos em todo o país, não modifica a conformação da câmara de deputados e, mesmo perdendo a maioria em senadores -o que não acontecia desde 1983- , continua sendo a primeira minoria e pode sancionar as leis negociando com outros partidos independentes provinciais.

Na província de Buenos Aires, que congrega quase 40% de eleitorado argentino, o governo recuperou quase 500 mil votos e o resultado final foi um virtual empate uma vez que a vantagem opositora foi de menos de 1% e o governador provincial, Axel Kicillof, recuperou o senado provincial que travava os trâmites legislativos.

Na noite de domingo, Alberto Fernández, em clima de celebração, anunciou que será o único orador em uma convocatória para a quarta feira 17 em que a Frente de Todos comemora o “Dia da Militância”.

Alberto Fernández na noite de domingo 14, após os resultados das eleições.

Como escreve no portal ElDetapeWeb o jornalista Nicolás Santos: “É um sucesso modesto, sem dúvida, mas no contexto de uma pandemia, recessão, super endividamento e alta inflação, um governo sitiado nos flancos político, midiático e financeiro e atravessado por [divisões] internas sangrentas não pode se dar ao luxo de deixar de aproveitá-lo”.

Como aponta o jornalista, é uma nova chance que o eleitorado argentino dá ao governo para se reerguer aprofundando as políticas sociais começadas tardiamente em setembro e cumprir as promessas eleitorais de 2019, o que Cristina Kirchner reclamara em uma “carta aberta” após a derrota nas primárias, e Alberto Fernández reforçou seu compromisso no discurso de domingo à noite à militância.

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